Nesta época parece que tem algo a mais na atmosfera, todos sorriem, se abraçam, felicitam uns aos outros, é uma relação fraterna. As crianças encantam-se diante das luzes multicoloridas, nem piscam seus olhinhos em deleite com o colorido vermelho do Papai Noel e tiram "retratos" nas grandes redes de magazine que atraem os papais (noeis) para as compras.
Voltando na máquina do tempo, não muito distante, revejo todos envoltos nas obrigações da véspera da chegada do Natal. Parecia que aquele instante era mágico, todo mundo se preocupava com alguma coisa. Pela manhã já havia panela na fervura e tacho no quintal, para "pelar" um leitãozinho "cevado", cuidado com zelo, já vinha nos braços de meu pai. Ele estendia o bichinho em uma tábua em diagonal lavada com água quente e uma "cutelada" debaixo do "sovaco" do porquinho, pronto, estava preparado o pernil do Natal.
Engraçado, hoje se compra uma perna de algum "cachaço velho" ou de uma leitoa que já não consegue mais parir, a gente tinha as quatro patas para "devorar". Do galinheiro vinham duas ou três galinhas caipiras também engordadas mais do que as outras para a ocasião especial. Já vinham amarradas pelos pés e em um golpe destroncava-se o pescoço, dependurando-as em alguma cerca esperando para serem depenadas em um tacho de água fervente.
Atualmente, se quisermos fazer um arroz ao molho pardo, uma cabidela, esqueça… Foi proibido o "matadouro" de aves e as "bichinhas" já vêm do supermercado, branquinhas, ensacadas, e até os miúdos compram-se separados. A mãe recolhia as antigas "botadeiras" e vinha escaldando e depenando com uma facilidade impressionante. Com uma faca bem afiada numa pedra rústica que havia no quintal, abria-se o peito e tirava a barrigada onde estavam todos os miúdos. O risco era a moela, onde estava o fel que, se rompesse estragava toda a carne. Mas minha velha era especialista, uma verdadeira cirurgiã. As madonas não tinham aulas de culinária como hoje e a prática passava de geração para geração.
Eu era uma espécie de "contínuo" destas operações e quando corria para o quintal o "Velho" já tinha passado a navalha no couro para fazer a "barba", arrancando os pelos e "debulhando" o porquinho todo com o "fato" estendido para virar sarrabulho, um sarapatel lá da "santa terrinha". Esse negócio de frutas secas não havia, as frutas eram todas "molhadas" e nós nos lambuzávamos com mangas maduras que carregavam os pés nesta época. Duas ou três ramas de mandioca eram arrancadas da terra de onde pendiam grandes raízes, lavadas e descascadas ali mesmo. Uma dezena de pimentões, que meu avô insistia em me fazer comê-los crus (os vermelhos), pois eram "docinhos". Hoje temos pimentões de todas as cores, parecem até de plástico de tão limpinhos, sem nenhuma manchinha, acho que é por causa do tal de agrotóxico.
Um bolo de fubá já estava assando em um pequeno forno onde o combustível era lenha seca, local onde também seria também "enfiado" o leitão preparado para a ceia. Era fartura que não acabava mais, mas nada era comprado, tinha até um escambo natural entre as pessoas: “eu te dou isso você me retribui com aquilo”, e a vida seguia seu rumo natural, sem shoppings e big supermercados. Nem inglês sabíamos e comprávamos o mínimo necessário na "venda" ou algum armazém da redondeza.
A noitinha vinha chegando, tinha que pegar a "roupa de missa" e ir para a Missa do Galo, subir e descer morro, para ver o Advento do Menino colocado no Presépio e eu ansioso para esperar o presente do Papai Noel. Ele era meio atrapalhado, eu pedia uma bola de "capotão número 5" e ele me trazia sapatos; eu pedia uma bicicleta e ele mandava uma calça comprida. Eu perguntava o motivo disso e meu pai falava que havia um montão de criança no meio do caminho e eu morava no "mato" e quando ele chegava tinha acabado tudo.
Mas um dia ele acertou e chegou a "bendita" bola. Nem dormi direito coloquei no lugar o tão esperado presente onde deveria estar o travesseiro leve de "plumas de paineiras", coisa chique! Nós nos fartávamos de comer, no centro da mesa colocava-se um licor feito de "pétalas de rosas" era degustado com satisfação e quando não pensava aparecer mais ninguém, vinha o amigo Cirilo abraçar meu pai e dar de presente um coco, do coqueiro de sua casa, com aguardente curtida. Ficávamos acordados até meia noite para ver o Papai Noel chegar e descobri que meu "Velho" era ele.
Enfim, Natal não era uma data… Era uma presença de espírito! Isso mudou, era um "barbarismo" nossa vida, e assim hoje vou cear do jeitinho "certo" e agora compro tudo no supermercado!
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