Ontem estive em um serviço público de saúde, aqui em São Paulo, que entre outras coisas, atende pessoas que querem deixar o vício do cigarro.<br><br>O trabalho é multidisciplinar e parece ser bom. Enquanto aguardava atendimento para a inscrição ao grupo que será formado para o tratamento, a minha atenção se voltou para o que acontecia em outro local dessa unidade.<br><br>Pela sua localização central, e a diversidade de atendimento, muitas pessoas que perambulam pelo centro da cidade, buscam ali uma orientação, uma ajuda, um… sei lá o que.<br><br>Deus do Céu, esses seres humanos perderam tudo, não só as coisas materiais, mas, principalmente a essência, a esperança, o sentido da vida.<br><br>Alguns carregavam consigo tudo o que tinham. Que se resumia numa sacola ou um cobertor, desses distribuídos à noite, para agasalhá-los do frio das ruas nas madrugadas.<br><br>Uma senhora aguardava atendimento, visivelmente transtornada, com a cabeça raspada e, entre palavras desconexas dirigidas à agente comunitária que a acompanhava, dizia a cada espaço de tempo: <br>"-Não se esqueça de falar para o médico que eu preciso de diazepam". <br><br>Apesar da sua visível perturbação e alienação, sabia o nome do seu remédio e parecia querer dizer com aquela repetição, que era tudo que lhe restava para manter-se viva.<br><br>Um rapaz pedia, como se fosse uma tábua de salvação, a possibilidade de fazer uma ligação do meu celular para um número que lhe foi dado na rua, uma chance de trabalho. Uma oportunidade que lhe seria dada mesmo naquelas condições precárias que ele se encontrava. Era uma chance, era a sua chance e ele não podia perder. Tentamos ligar, ninguém atendeu. Que pena.<br><br>Alguns que eram orientados a se dirigir para albergues no centro da cidade, aguardavam encaminhamento. Outros esperavam atendimento médico. Outros apenas esperavam…<br><br>São os nossos excluídos, que naquele lugar buscavam um tipo de inclusão.<br><br>Impressionante, tocante, cruel e real. Impressionante também erro o atendimento dos profissionais presentes: enfermeiros, atendentes, assistentes, acompanhantes, médicos, todos fazendo o possível para atender cada um dos que ali estavam naquelas condições. Todos verdadeiros heróis daquele Centro de Atendimento.<br><br><br>E-mail do autor: [email protected]<br>