O ano transcorria com suas típicas nuances, as estações se sequenciavam, quase previsíveis.
Esqueço o calendário por boas razões, pois para as crianças e adolescentes, o verão do início do ano nada mais era que uma continuidade do “verdadeiro verão” que se iniciava no fim do ano escolar.
Em novembro, com os dias mais longos e aquecidos, a natureza já sinalizava para o verão.
Sem dúvidas, o verão era o ápice. Sonhávamos com o encerramento do ano escolar, respirava-se as festas de Natal e Ano Novo. O deleite com o tempo quente para brincar e jogar fora conversas com os amigos.
Finalmente despontava o Dezembro das férias. Tínhamos tempo para fazer o que tivéssemos em mente, na paz e tranquilidade das ruas, nos descampados onde só a “barba de bode” crescia. Ou ainda nos pequenos capões, onde se faziam presentes goiabeiras, pitangueiras, maracujás, framboesas silvestres, amoras de diversos tipos, touceiras de Maria pretinha, Cambuí, gabiroba, e mais outras espécies de frutinhas naquilo que era o nosso Eden.
Eram jogos de todos os tipos, era um futebol de “bola de meia”- pois que bolas de “capotão” eram raras e caras -; travávamos “violentos” combates entre “bandidos e mocinhos”; brincávamos de pega-pega com as meninas, bolinha de gude, ferozes disputas de piões em frenético giro, enlouquecíamos com tudo o mais que podíamos desfrutar.
Tínhamos tempo, muito tempo, e após o almoço ao ouvirmos na rádio São Paulo os acordes da “Dança das Horas” de Poncielli, sabíamos que se iniciavam as novelas da tarde. E, nossas mães, como hoje, adoravam novelas. Teríamos algumas boas horas sem cobranças, poderíamos brincar sem vigilância. Era a realização da liberdade máxima.
Em algumas tardes, embrenhávamos no mato, erigíamos monumentais cabanas de folhas e galhos para proteger-nos do sol, colhíamos as frutas e contávamos estórias engraçadas.
Em outras tardes, quando o calor se tornava insuportável tomávamos outro rumo. Era o rumo do passeio proibido. Subíamos ao topo do ”morro da Capucheta” em procura de “inimigos”. Cuidadosamente perscrutávamos a baixada, mirávamos para nossa direita onde perquiríamos a encosta do morro de nosso território na Vila Prudente, em direção do Parque da Mooca, culminando no Alto da Mooca… Ninguém a vista, nem sinal dos “inimigos”.
De relance, olhávamos para a esquerda, completando a paisagem delineada pelos trilhos da estrada de ferro Santos a Jundiaí. E mais ao longe, lagarteava lentamente o limpo e piscoso Tamanduateí, marcando o início da escarpa suave do Ipiranga e que culminava com majestoso museu da Independência, já fora do alcance de nossa visão.
No centro desse lindo vale, encontrava-se nosso balneário, nosso refúgio.
Eram três pequenas lagoas, A Prainha, o Chipum e o Bicão. Água limpa que minava na baixada e onde um bom mergulho era a festa. Os “inimigos” nada mais eram que os garotos do Parque da Mooca, que também gostavam de se refrescar nas lagoas, mas como nós, por instinto selvagem de posse, não gostavam de compartilhar. Assim se uma turma estava lá a outra não ia, para evitar encrenca.
Após o esbaldar, volvíamos a tempo, pois nosso infalível relógio era o céu.
O verão era metódico. Cedo no despertar do dia, anil límpido.
Já no meio da tarde, os flocos brancos prenunciavam nuvens tenras, belas, cândidas, com os contornos remetendo às mais lindas figuras que no nosso imaginário se tornavam rostos, animais plantas, flores, brinquedos, monstros, ou o que mais desejássemos.
À medida que as horas fluíam, o calor ensandecia as nuvens, as agitava, as escurecia extravasando o mau humor e prenunciando a tormenta diária.
Era hora de voltar para casa. Arribávamos a tempo de um bom banho ao som dos trovões, a borrasca se arrastava no tempo exato de nosso jantar.
Seguia-se a bonança de uma noite quente de verão.
O céu onde exauridas nuvens se recolhiam, abrindo espaço disputados pelas estrelas, e pela lua que, percorrendo seu ciclo repetia suas aparições.
Um doce odor de terra molhada… um ar limpo e agradável, preparava para uma nova etapa de contemplação que se seguia.
O som das cigarras que nos acompanhara durante o dia era substituído pelos grilos.
Dos baldios, como por encanto aflorava o lampejar dos vagalumes, timidamente, no início e num repente, aos borbotões das diversas espécies com seus lampejos esverdeados, disputando com o céu estrelado, o privilégio de proporcionar o mais belo espetáculo.
Os jasmins e as damas da noite, bem como as camélias, aspergiam perfume lembrando que também faziam parte do verão. As maravilhas desabrochavam com toda a sua multiplicidade de cores para uma curta noite de beleza também participando do festival da natureza com um convite para os namorados.
A noite era bela, aliás, continua sendo… pena que o uníssono, partilhado por todos, que compartilhavam a natureza e não as modernidades alienantes, deixavam a marca de uma época, que sem dúvida deixou saudades.