O lânguido apito da bela Maria Fumaça. Majestosa e velha senhora importante, apesar de seu pequeno tamanho, no trabalho de por em ordem a posição das composições enormes nos trilhos da região de descanso após árdua faina. O silêncio absoluto das ruas do Brás, quebrado às vezes, raramente, pela passagem de um automóvel. Ou pelos pregões dos vendedores que passam levando suas mercadorias. Ou do matraquear do vendedor de bijus, ou baquijo, segundo alguns.
O deslocar do sol pelas imensidões do céu não muda muito o ambiente. O silêncio continua e a mente das pessoas sonha com um futuro melhor, com a possibilidade de ter sua casa própria e assim fugir do aluguel e, quem sabe, até possuir seu próprio automóvel e não mais depender da condução difícil… Os velhos mais velhos sentem com o silêncio interminável e com a solidão, com a falta de alguém para conversar, com a vontade inexplicável de possuir um objeto que fale, que lhes dê a possibilidade de ouvir música. Com certeza algum dia isso existirá e deixará de ser utopia. Quem sabe até algo que tenha imagens, parecido com o tal de cinema.
A voz do jornaleiro tira-o de suas ruminações e o leva a pensar se vale à pena comprar hoje o jornal. Ultimamente as notícias têm sido muito tristes, mais do que a própria vida! Iminência de guerra. Isso em pleno início do século XX! Pelas lições que teve no grupo escolar, sabia que guerras, verdadeiras carnificinas, haviam acontecido nos séculos passados. Mas agora, em pleno século XX! Ainda bem que isso, se acontecer, será lá na distante Europa. Há pouco, saímos de uma revolução. Pessoas inocentes morreram, como sempre. Poucos levaram vantagem com a vitória. Rapazes, ainda adolescentes, perderam suas vidas. Suas famílias choraram, perderam seus arrimos e nada puderam fazer.
Aqui no bairro isso aconteceu, sou testemunha. Não, hoje não compro jornal. Quero evitar ficar mais aborrecido. Talvez amanhã, quem sabe. Bem, está na hora de tomar meu café. Até há pouco tempo minha velha fazia questão de me servir o café com leite e aquele delicioso bolo que ela fazia e chamava de bolo areia. Mas, chega de saudade. É melhor me alimentar, senão… Meus filhos saem cedo de casa para trabalhar. Na fábrica são exigentes em relação ao horário. Devo dar graças a Deus pelo fato de eles estarem empregados; minha aposentadoria é tão pequena que mal dá para o básico.
Trabalhei a vida toda na estrada de ferro. Vi de perto o trabalho da velha Maria Fumaça. Me apaixonei por aquela montanha de ferro. Hoje, quando ouço seu apito, me vem à mente uma série enorme de lembranças não só do trabalho. Estou tão habituado que, o dia em que aposentarem também a velha locomotiva, creio que sentirei até as lágrimas a falta de sua voz lamentosa. Às vezes, comparo minha vida com a dela. Ela lamenta, através de seu apito, o trabalho árduo e não reconhecido. E eu suspiro languidamente pelas oportunidades perdidas e por não ter dado aos meus filhos vida melhor.
Com frequência, me vem à mente o desejo de, quem sabe, morrer juntamente com a velha Maria Fumaça. Tenho certeza que não suportaria não mais ouvir seu apito nostálgico. Sua falta apagaria todas as belas lembranças de minha mente cansada.
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