Velhas lembranças de Natal

Como tudo era diferente no tempo em os shoppings centers não existiam, é claro que hoje em dia, com a modernidade e agitação, eles são mais do que necessários. Mas me lembro tão bem do comércio de antigamente, as lojas se distribuíam pelas ruas dos bairros e principalmente no centro da cidade.<br><br>No comércio do bairro, todos se conheciam e se comprava até fiado, na base da caderneta, o cliente pagava no final do mês. Isso acontecia nas vendas, açougues, armarinhos.<br><br>Certa vez, querendo dar uma lembrança de aniversário ao meu pai e tendo que juntar moedinhas, a única coisa que consegui comprar foi um pequeno tablete de chocolate, na mercearia do senhor Diogo, um português que tinha seu comércio na esquina da Rua Loefgreen com a Rua Três de Maio. Falei para ele que o chocolate era presente e ele, com toda a boa vontade, embrulhou o tabletinho com carinho, em uma folha de papel de seda branca e amarrou com um barbante colorido, ficando um embrulhinho caprichado. Saí dali explodindo de alegria e achando que aquele seria o melhor presente que alguém poderia receber.<br><br>Ir as compras era um programão, principalmente na época do final de ano. Na minha infância, presentes só eram ganhos em ocasiões especiais: aniversário e natal. E como era bom, e dávamos valor. Minhas irmãs e eu íamos com nossos pais às lojas de calçados da Rua Direita, São Bento e imediações. Comprávamos sapatos geralmente nas Lojas Brasília, Casa Vermelha e Galo Branco. Os calçados eram de boa qualidade, pois tinham que durar pelo menos um ano, até a próxima compra. Depois íamos comprar tecidos nas Pernambucanas, que na época só vendia esse tipo de mercadoria. Em seguida, dávamos uma passadinha no Mappin, onde hoje é a Casas Bahia, que ficava em frente ao antigo prédio da Light, onde hoje funciona um shopping. No Mappin, víamos brinquedos que cheiravam a tinta: bicicletas, bonecas de louça, carrinhos… Nunca pedimos nada, mas sempre ficávamos contentes com os presentes recebidos.<br><br>De volta para casa, minha mãe levava os tecidos para a minha avó e minha tia, que confeccionavam os nossos vestidinhos, o de minha mãe, bem como a calça e a camisa do meu pai. Eram os presentes de Natal delas para a nossa família. Duas semanas antes do Natal, meu pai comprava um lindo pinheiro natural, perfumado como ele só, e o colocava sempre na sala, perto da escada; além das bolas de vidro coloridas e brilhantes, meu pai fazia com cartolina e purpurina, casinhas, sinos, anjinhos, que eram pendurados na árvore. Eu salpicava de algodão, para imitar a neve, e quando o meu pai comprou o primeiro cordão de luzinhas, que ainda não eram pisca-pisca, o pinheiro ficou uma beleza, e não nos cansávamos de olhar.<br><br>Os presentes eram colocados embaixo da árvore e sempre, uma surpresa. Nenhuma de nós dormia nessa noite, ansiosas pra que amanhecesse e ver o que o ¨Papai Noel¨ havia nos deixado.<br><br>Quase morri de alegria, no Natal em que ganhei uma linda carrocinha de pedalar, puxada por dois cavalinhos brancos com montaria marrom. Desfilei por muito tempo pelas ruas de Vila Clementino, com meu garboso veículo, inclusive nas feiras livres. Ainda bem, que naquela época o movimento nesses lugares era mais tranquilo, senão eu iria atrapalhar um bocado.<br><br>Não fazíamos ceia, e sim o almoço de Natal com uma comida típica em nossa casa, a sopa de capeletti caseiro, feito com massa fresca, recheada com uma mistura à base de peito de frango, lombo, copa, pão umedecido, raspas de noz moscada e queijo ralado. Era uma comida um tanto pesada para o nosso clima, mas uma delicia.<br><br>Ontem, vi na televisão uma reportagem onde duas garotinhas muito espertas escolhiam seus presentes de Natal; não pediam bonecas, mas sim uma filmadora e um tablet.<br><br>É… Os tempos mudaram muito, mesmo!<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>