Vamos falar de canetas?

Quantas passagens, quantos progressos.
As primeiras canetas de que me lembro, eram as do meu pai: de madeira, com penas de aço, Ronde ou Gótica.

É a imagem mais longínqua de minha infância, que se fixou e me acompanhou muito tempo, uma caixinha pequena, de uns 5cm por dois ou três cm (de chá inglês) onde meu pai guardava suas penas, mergulhadas em talco.
Hoje, recuperada essa famosa "caixinha" de minhas lembranças, com 80 anos (meu pai já a tinha quando solteiro, em 1924), faz parte do meu Baú da Memória, ocupando um lugar especial pela "idade". É exatamente como a descrevi e tem escrito TE SOL com um sol desenhado, e nos bordos indicações de que continha mistura de chás da Índia e do Ceilão.

Meu pai usava essas penas para as "escritas" que fazia exercendo a profissão de "guarda-livros". Assim, os cabeçalhos CAIXA, CONTAS A PAGAR…eram escritos com letras rebuscadas, que, para serem escritas necessitavam treino e escola. Meu pai cursou (e se usava muito) a Escola de Caligrafia do professor Franco, que foi famosa e se manteve muito tempo em S.Paulo. Será que existe ainda? Caligrafia era importante e nas escolas primárias os cadernos de caligrafia (existirão ainda?) eram obrigatórios.

Das canetas da minha vida, outra lembrança é a de bancos escolares, das carteiras de madeira com tinteiros embutidos. Escrever à tinta já era um degrau a mais na escola. Quanta tinta derramada, quanto avental branco (uniforme da época) manchado. As penas eram de aço, e mesmo as simples quando muito usadas "abriam" no meio e eram então substituídas.

Que progresso o aparecimento das canetas-tinteiro, com depósito de tinta cheio com êmbolo. Vidros de tinta Sardinha e Pelikan estão na minha memória. As famosas Parker, mais simples com desenho de anéis em azul ou marrom, mais sofisticadas com tampa dourada, as famosas Parker 51, inesquecíveis na nossa geração.

Cada vez mais baratas e mais variadas, as canetas mudaram muito. É claro que há as hierarquicamente superiores como as Mont Blanc e companhia, mas, o que se usa mesmo são as BIC ou PILOTS ou JOHANN FABER ou… da vida, ao preço irrisório de uns 50 centavos de Real ( quase equivalentes a dois pãezinhos ou ¼ de litro de leite). Não exigem cuidados, tanto se acha como se perde, e estão por toda parte de uma casa, usadas a qualquer hora e em qualquer circunstância. Tanto servem a grandes arroubos literários como a plebéias listas de compras de supermercados da esquina. É com uma dessas esferográficas (é muito engraçado ouvir pessoas pouco cultas, chamá-las de estereográficas) que escrevo o rascunho destas notas.

Junto com a lembrança das canetas aparecem os "berços" de mata-borrão para enxugar a tinta que demorava a secar. Quando o papel mata-borrão já estava coberto por muitas letras enxutas, era trocado, desatarrachando-se uma espécie de parafuso de madeira que ficava em cima do "berço" e que servia também para segurá-lo.

Mais lembranças ainda, me levam aos limpadores de penas: círculos concêntricos de feltro, de vários diâmetros, presos por um botão no meio.Entre os vários círculos se limpavam as penas. Eram geralmente de cores escuras e quando muito carregados de tinta eram trocados. Alguém se lembra?

Em tempo – Ainda agora vi um anuncio em que uma Mont Blanc "coberta de 1430 diamantes brancos e negros e um top wesselton (brilhante do maior grau de pureza) no clip. Pelo preço "irrisório" de R$ 400mil.