Uniforme de gala em Santo Amaro

As ocasiões eram raras, porém, sempre surgiam para que as alunas do Colégio Jesus Maria José usassem o uniforme de gala, composto de: saia pregueada na cor creme, em lãzinha, tipo clidelha, cujo comprimento era longuete, com cós na cintura e um cintinho com fivela, forrado de couro, camisa de mangas longas em fustão de seda e gravatinha, azul marinho, com o nó pronto e um elastiquinho que terminava com um par de colchetes, macho e fêmea, que se uniam harmoniosamente, na nuca, sob o colarinho da já citada blusa, sapatos mocassin Vulcabrás, meias 3/4 brancas e, na cabeça, um lindo chapéuzinho, de abas arredondadas, tipo "boneca", confeccionado em feltro na cor creme, rodeado por uma fita de 5 cms. de largura, de gorgurão de seda, na cor azul marinho, terminando com laço chapado, na parte de trás. O ponto alto e mais importante do conjunto era este chapéu, feito por uma senhora, chapeleira que residia, se não me falha a memória, na Rua Campos Sales, atual Rua América do Sul, em Santo Amaro. Mil desculpas, porém não me recordo o nome desta senhora, se alguém souber, agradecerei pela informação. Será que era Dna. Salvatina?

Após descrever o importante traje, os caros leitores não fazem ideia de quantas cenas, de quantas ocasiões importantes ele fez parte. Desde o preparatório das vestes como, lavar, passar a saia que era uma tarefa dificílima, visto que a lã, ao ser lavada, ficava toda amarfanhada, e para passar só por Deus, mesmo! Aliás, era por Ele que sempre se preparava o dito cujo, para missas, procissões, coroações da Virgem Maria e Coração de Jesus, desfile de 7 de Setembro, situação esta das mais importantes, pois íamos à frente acompanhadas pela fanfarra do Colégio Alberto Conte!!!

As preguinhas da saia eram de um centímetro e as mães passavam a ferro cobrindo-as com um pano de algodão úmido, para desamarrotar e não deixar brilho no tecido. A blusa, igualmente cuidada e os sapatos engraxados com Nugget.

Pôr os pés para fora de casa com esse uniforme, gente, era a coisa mais importante que poderia acontecer para uma menina de 13 anos como eu. Sentia que o mundo estava a se debruçar e a minha presença era notada por onde eu passasse. Nada poderia dar errado e não havia menina mais bonita do que eu, de jeito nenhum. No trajeto da minha casa até a Avenida Adolfo Pinheiro, na esquina da padaria De Lucia, andava a desfilar como se fosse numa passarela.

Ao entrar no bonde, que nos conduziria à Igreja de Santa Efigênia, para assistirmos à Missa comemorativa do dia da Santa, os olhares eram os mais penetrantes naquela fatiota imponente. Participávamos, com outras escolas católicas, do evento festivo, mas claro, as mais bonitas e mais bem vestidas… Como sempre!

As datas marcantes, na minha cabeça de criança, foram aquelas em que podíamos usar o Uniforme de Gala. Como na procissão em comemoração ao Dia de Corpus Christi, lindas, saímos nós em fila indiana do Colégio, cantando Coração Santo, Tu reinarás…; Com minha mãe estarei… e rezando o Terço, rumo à Igreja Matriz de Santo Amaro, no Largo Treze. Vários andores levados, passo a passo, foram retirados dos altares da capela, com seus santos engalanados, os seguíamos, com todo respeito e contrição que o momento exigia. À frente do cortejo ia o Santo Sacrário, conduzido pelo padre castelão do Colégio.

As alegrias eram obtidas por meio de situações solenes, tal era o compromisso com as coisas sérias, responsabilidades e amor ao próximo que faziam parte da nossa infância.

O incenso e os cantos religiosos purificavam as nossas puras almas.

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