Uma valsa no meio do dia

Neste dia das mães, resolvi homenageá-la. Therezinha, tratada por toda a família por Zita, neta de portugueses e italianos. Encontrou o seu par de modo impensável, num acidente de trem entre São Paulo e Santos, quando o último vagão da composição se soltou e despencou serra abaixo. Consta que houve muitas vítimas e o ano era 1950. Meu pai e minha mãe estavam no mesmo vagão e, como estava tudo parado, foram orientados pelos funcionários da ferrovia a descerem e aguardar uma verificação dos mecânicos. Papai ajudou crianças, idosos e moças a saltar do vagão, pois a altura era considerável. Depois disso em função da longa espera, várias pessoas conversando, se conhecendo e a origem de amizades e amores.

Voltando à capital, logo iniciaram a sua história. Meu pai muito afeiçoado à futura sogra, D. Zezé sempre pedia a sua benção e quando tinha no bolso um bilhete de loteria pedia aquele favor especial, que era a benzição com ramo de arruda; e ela dizia uns versinhos que nem sempre eram os mesmos, com o objetivo de pedir a Deus a sorte para meu pai se ele fosse merecedor, e tudo sempre acabava com muitas risadas.

Importante é que diversas vezes o Ernesto da Zita ganhou pequenos prêmios, e isso aliviava a vida de assalariado.

No ano seguinte se casaram e foram para o Rio passar a lua de mel. E não é que na volta um dos motores do avião começou a soltar fumaça? Sem maiores consequências, a aeronave voltou à terra e seguiram em outro voo, no dia seguinte.

Embora possa parecer uma relação pontilhadas de tragédias, nada disso afetou a vida de casados, o progresso e a chegada de três filhos homens. Dos três filhos sou o do meio e aquele que tinha maior afinidade com D. Zita.

Em momentos de algum problema doméstico ou alguma tristeza, minha mãe achava um jeito todo especial em superá-los, dançando na sala no meio do dia. O seu par era este que lhes escreve. No início tinha de aprender e não achava difícil. Eram valsas, boleros, fox-trot e até alguns tangos. Com trinta minutos de dançoterapia a tristeza ia embora e depois escutávamos um pouco de Mozart e Chopin para elevar a alma, como ela dizia.

Já são 45 anos sem a presença luminosa de nossa Therezinha e, se pudesse enviar um recado, diria, "Mãe, seus pequenos estão bem, estudaram e formaram, um geólogo, outro químico e o caçula em Farmácia e Bioquímica; todos constituíram família e estão casados com suas primeiras esposas, que lhe deram seis netos, quatro homens: Rafael, Ettore, Emanuel e Jessé, além das netinhas Valentina e Daniela. E não há valsa que escute ou sua preferida, Noturno, que não sinta a lembrança doce de sua presença e de seu valioso legado da curta passagem terrena." A sua benção, mamãe. Benção, papai. Beijo vovó.

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