Uma questão de amor

Minha mãe nasceu no bairro da Mooca em 13 de agosto de 1928. É apaixonada por São Paulo e gaba-se de ter presenciado grandes eventos da história da cidade.

Um de seus maiores orgulhos é dizer que participou, em 27 de abril de 1940, da inauguração do Pacaembu, hoje Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho. Pois é: a menina de onze anos estava lá a representar o Grupo Escolar de Vila Esperança, segurando orgulhosa, durante o desfile das escolas, uma das pontas da bandeira brasileira.

Durante sua juventude trabalhou na Rua Dom José de Barros, entre a Avenida São João e a Rua Barão de Itapetininga. Percorria longos trajetos a pé. Por isso, conhece o centro como ninguém e parece ser um mapa ambulante quando qualquer pessoa tem dúvida de como chegar a algum lugar: o itinerário é por ela descrito com precisão de detalhes de subidas e descidas e quebradas.

Conheceu o Teatro Municipal em um concerto de piano, na segunda metade da década de quarenta, levada por João Gibin, um dos maiores tenores brasileiros, o qual venceria, em 1951, a competição promovida pela Metro Goldwyn-Mayer para o lançamento do filme O Grande Caruso, recebendo como prêmio uma bolsa de estudos na Itália, onde iniciou carreira internacional de sucesso.

Em 1954, nas comemorações do 4º Centenário da cidade de São Paulo, que aconteceram em nove de julho, coincidindo com o 22º aniversário da Revolução Constitucionalista e com o 4º Congresso Eucarístico Nacional de São Paulo, minha mãe, como boa filha da terra da garoa, lá estava, com meu pai a tiracolo, para acompanhar os festejos de sua cidade querida. Na Catedral da Sé, cuja construção tinha sido concluída para o evento, cerca de duzentas mil pessoas acompanhavam a missa: os convidados dentro da igreja e a multidão apinhada do lado de fora.

Terminado o ofício, todos se dirigiram ao Vale do Anhangabaú para assistir ao desfile de bandas. Com quase um milhão de pessoas acotovelando-se nas ruas, meu pai, preocupado com o "estado interessante" de mamãe, procurava um espaço menos apertado para os dois. Encontrou uma clareira e para lá foram em passos apressados para não perder o lugar. Só se deram conta da "sorte" que tiveram quando os canhões, a apenas alguns metros, começaram a disparar a tradicional salva de tiros.

Até hoje, quando conta o episódio para alguém, mamãe comenta o quanto eu me mexia em sua barriga de oito meses de gravidez. No início da noite, no Viaduto do Chá, sob a iluminação de holofotes, caiu sobre o povo uma chuva de papel laminado feita de triângulos prateados, com o símbolo da festa – uma voluta ascendente – gravado no centro em azul. Mamãe ainda guarda uma dessas relíquias na sua caixa de recordações, que um dia será minha herança.

Como não amar São Paulo? Eu estava lá, bem protegida, para vibrar de alegria e ver, através dos olhos de minha mãe, a cidade, tal qual jovem senhora, enfeitada para os seus 400 anos. Nesta cidade fui gerada. A primeira luz que vi, o primeiro ar que respirei foram da metrópole abençoada, terra de gente forte que tem como seu mais legítimo adjetivo o de ser trabalhadora e obstinada.

Com quatro anos de idade mudei-me, não para muito longe, mas o suficiente para deixar-me dividida: cresci em outra cidade que adoro e que adotei, mas sinto-me, sinceramente, pessoa de dupla cidadania, pois minha mãe nunca me deixou esquecer que sou uma paulistana da Mooca, legando-me a sua paixão por São Paulo.

Passaram-se vinte e cinco anos daquelas festividades e então era meu o "estado interessante". Meu primogênito deveria nascer nos últimos dias do primeiro mês do ano, todavia a lua mudou, precipitando os acontecimentos, e ele nasceu à uma hora do dia 25 de janeiro de 1980. Minha mãe, a avó, a apaixonada pela cidade, não cabia em si de contentamento. Pelo neto? Também. Mas o que a deixou triunfante mesmo foi a data. Ainda hoje ela confidencia para alguns: sabe que meu neto faz aniversário junto com São Paulo? E emenda: e minha filha, a mãe dele, nasceu no 4º Centenário. Só não acrescenta, por ser um fato triste, que perdeu sua própria mãe num dia 09 de julho!

Estranhas coincidências fazendo a história de uma cidade mesclar-se à história de uma pessoa, onde a recíproca é totalmente verdadeira. Trata-se de um antigo e incorrigível caso de amor entre minha mãe e a "sua" cidade. E eu me orgulho de ambas.

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