Uma pérola inserida no Brás

Quando se entrava pelos portões da Oficina Cultural Mazzaropi, tanto pela Visconde Parnaíba, 2437, em frente ao Restaurante Presidente, como pela Coronel Albino Bairão, 196, adentrava-se num lado desconhecido do bairro do Brás. Era um mergulho num mundo diferente do Brás dos operários, dos imigrantes italianos e do comércio popular.

A oficina, projeto da Secretaria de Estado da Cultura, estava localizada num grande galpão reformado, onde um dia abrigou o Olificio Atorino, fabricante e exportador de óleos vegetais, mais precisamente o de mamona. O olificio funcionou até meados dos anos 70 e, a partir dos anos 80, já como oficina cultural, presenteava os seus freqüentadores com sonhos, pois é assim que denomino os cursos, apresentações, workshops, exposições e uma infindável série de expressões artísticas que aconteceram lá por quase 20 anos.

Sem falar nas inúmeras personalidades que por ali marcaram sua presença no palco, nas salas de aulas ou na administração do espaço. Ao caminhar pelas imediações do Brás, muitos se surpreendiam com o fato de existir um espaço daquele porte, com um auditório, palco e salas de aula inseridos no meio de tantas fábricas, característica daquela região do Brás. Era uma pérola incrustada na rusticidade daquele bairro, esperando para ser descoberta.

A oficina, com nome em homenagem ao ator cômico Mazzaropi, tem muita história pra contar! Tive a oportunidade de conversar com descendentes da família Atorino, proprietários do prédio, que me passaram algumas informações sobre fatos interessantes do antigo olificio.

Antes da reforma, no tempo do funcionamento da fábrica, lá pelos anos 50, a arquitetura do lugar era outra, a qual aqui descrevo de acordo com o que escutei. Onde fora construído o auditório era a parte de produção do óleo – um dia existiu uma caldeira para a fabricação do óleo ali; onde se vê hoje o palco, antes da reforma, era a plataforma de embarque/desembarque dos caminhões. Do outro lado, pela Visconde, os escritórios, ou seja, a parte administrativa da fábrica, e a pensão, localizada no bloco superior da Visconde, a moradia da família que, como bons italianos, moravam todos juntos: pai, mãe, tios, sobrinhos, enfim, toda a "parentada".

Conta-se que no auge da existência do olificio, o Senhor Atorino, dono do edifício e da empresa, se levantava toda noite para verificar a temperatura da caldeira, num cuidado exemplar para que o produto fosse de primeira qualidade. Também fiquei sabendo que, durante a Revolução que aconteceu em São Paulo, o mesmo Senhor Atorino, temendo alguma bala perdida, colocava os sacos com mamonas contra as janelas, para que se evitasse que alguém dentro da fábrica fosse atingido.

Os vigias noturnos que trabalharam na oficina sempre me diziam que ouviam vários ruídos durante suas rondas, sugerindo-me que o local era assombrado, talvez pelo velho Atorino cuidando do seu querido espaço. Bom, ouvi muitas histórias ligadas ao lugar e vivenciei as minhas próprias experiências.

Não tenho datas precisas dos fatos, nem da construção, mas estes "causos" fazem a história desse "tesouro" no bairro do Brás, o qual fez parte da vida de muita gente, seja abrigando os trabalhadores da região na época do funcionamento do olificio, ou como oficina cultural, abrigando aqueles que buscavam despertar o lado criativo com momentos de sonhos e fantasia.

Dentro destes quase vinte anos de existência do espaço cultural, fui testemunha, como aluna e funcionária. Fui brindada com este presente de Deus, fazer parte deste mundo de sonhos no bairro do Brás. No início dos anos 2000, a fábrica de sonhos mudou-se para um prédio histórico tombado pelo Condephaat, a escola das normalistas na Avenida Rangel Pestana, 2401. Um prédio datado de 1912, que também, com certeza, deve tem muita história pra contar.

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