Uma grande família

<br>A noite já chegava naqueles domingos dos meados da década de sessenta e nós, da turma da Rua Santo Antônio, nos reuníamos na calçada de nosso quarteirão para, depois do programa Jovem Guarda, distrairmo-nos com ocupações pueris, típicas de nossa juventude daquela época.<br>Comentávamos o programa capitaneado pelo Rei Roberto Carlos e arriscávamos os compassos das músicas por ele cantadas e as de outros artistas que por lá também se apresentavam.<br><br>Nossa concentração se dava sempre em frente à casa de dois pavimentos, onde residia o meu amigo Nêgo Avoleta e sua família. Era uma família numerosa. O patriarca, o Sargento Avoleta, alfaiate da corporação da extinta Força Pública e hoje Polícia Militar, confeccionava as fardas sob medida para os muitos oficiais da corporação. Dona Hermir, uma senhora de beleza ímpar, dedicava-se aos cuidados do lar e era representante dos produtos da Avon, cosméticos que realçavam mais ainda sua beleza natural. Seus filhos, pela ordem cronológica: Gilson, aspirante a oficial da Força Pública; Suely; Antonio Junior (Nêgo); Heloisa; Gilmar; Hermir (a Mizinha); e o caçula Gilberto. As alegrias e a concórdia emolduravam aquele cenário de família feliz onde cada um tinha suas atribuições previamente determinadas para o perfeito equilíbrio e convivência.<br><br>Não sei como se iniciou a nossa amizade, mas é certo que, com o passar do tempo, a intimidade familiar permitiu-me uma cumplicidade da sala à cozinha e demais dependências, com direito à divisão de saborosas refeições e quitutes divinos, preparados pela dona Hermir. Com os meninos, a interação era plenamente envolvente, excetuando-se o Gilson que, por ser o mais velho da turma, tinha uma postura mais séria e, na austeridade de seu comportamento militar, destacava-se mais reservadamente. Contudo, tinha sempre um bom papo e por vezes nos orientava em nosso procedimento juvenil.<br><br>Nossos encontros eram mais frequentes à noite, em dias de semana, já que cada um de nós tinha responsabilidades com o trabalho e os estudos, assim como outros membros de nossa turma, como o Moacyr (o “doido mais esperto do bairro”), Ariovaldo, Aristeu, Carlinhos, Genarinho (o “invocadinho”), Eduardinho, Paulo “Japonês” e o meu grande amigo e irmão “Natal”, cujo nome é José Mendes. Todos do meu eterno querido bairro do Bixiga.<br><br>Ocupávamos as nossas horas com brincadeiras do tipo “caxuleta”, “mãe-da-rua”, “pula-sela” ou outra atividade mais cultural que envolvesse raciocínio, como cantar, na íntegra, o Hino Nacional ou responder questões enigmáticas de conhecimento universal, em que eu sempre me sobressaía pelo conhecimento mais profundo.<br><br>Por ser o mais alto da turma, eu sempre era alçado à condição de “liderado” e por livre e espontânea “pressão” de todos, as atividades mais arriscadas seriam a mim competidas.<br><br>Como no caso de uma noite fria de certo mês de junho, época de festas juninas, quando um balão caiu em cima de uma das casas da Rua São Domingos e eu, por ser o maior de todos, tive de escalar o telhado para resgatar o tal balão.<br><br>Meu feito foi heróico, pois consegui apagar a mecha do balão, evitando um grande incêndio no antigo casarão, trazendo o tal balão intacto que, depois de devidamente remendado, foi devolvido ao céu, que neste dia estava bem limpo e estrelado, perdendo-se no horizonte. O tal balão precisou ser batizado para ser lançado e, depois de muitas indagações e dificuldades para um novo nome, eis que, ao olhar para o bendito balão ocorreu-me dizer:<br>- Parece uma bracciolla…<br>A risada foi geral e o balão alçou seu voo, devidamente rebatizado com o sugestivo nome de Bracciolla e que, por direito adquirido, tornou-se o meu apelido no meio da turma.<br><br>As meninas, Suely, Heloisa (Loy) e Hermir (Mizinha), enfeitavam a família com suas graças e belezas. Suely foi a primeira a casar-se, com o enigmático Juarez. Pessoa de poucas palavras e palmeirense de coração, tem um irmão por nome de Gilson, que dançava um samba quadradinho como ninguém. Era aí que nos perguntávamos: <br>- Como pode “um alemão” dançar tão bem um samba bem brasileiro?<br><br>Na verdade, eles não eram alemães. Os cabelos alourados e os olhos de íris claras denunciavam uma descendência européia, mas são brasileiros legítimos.<br><br>A Loy, muito extrovertida e sempre alegre, era a cantora da família e era proprietária de um finíssimo violão Del Vecchio, modelo dinâmico, cheio de pequenos “ralinhos” em seu bojo, muito utilizados em modas caipiras. Tocava o instrumento razoavelmente. Por fim, a Mizinha, caçulinha das mulheres, não economizou na beleza e trouxe, junto com as irmãs, toda a delicadeza, graça e a força sanguínea dos Avoleta.<br><br>Este laço de amizade ainda teve episódios dos mais engraçados quando o Gilson, irmão mais velho, resolve fundar o “GATA” – Grupo Amador de Teatro Avoleta – e decide que temos de encenar o clássico de Ariano Suassuna, “O Auto da Compadecida”. Eu faria o Cristo que, no romance, é negro. Mas isso já é uma outra história.<br><br>Na casa dos Avoleta vivia também o Luiz Lambert, filho de importante família de Bragança Paulista que ocupava um dos quartos da casa como inquilino. Muito alegre e festivo, foi ele quem primeiro me ensinou os acordes primários para tocar violão, hoje sou um virtuoso nesse instrumento. Certa vez, ficamos surpresos em receber a notícia de que Luiz havia, de um estalo, pedido a mão de Loy em casamento. Ambos tinham suas vidas amorosas bem resolvidas. Luiz namoricava alguém e a Loy havia também tinha o seu par romântico. A surpresa foi geral e Luiz e Loy casaram-se.<br><br>Os tempos foram passando e cada qual buscou seus horizontes. Eu conheci uma baianinha e com ela me casei, vindo morar na Bahia, onde estou desde o início de década de 70, época em que os Avoleta também se transferem da capital para o interior paulista. Neste ínterim, três tristes fatalidades abalam os Avoleta: as mortes do patriarca, Seu Antônio e as mortes trágicas de Gilmar e Gilberto, o Beto, caçula dos homens. Beto adorava quando eu imitava a voz do Pato Donald e eu só conseguia algo dele se fosse desse jeito.<br><br>Nossa turma era unida em todas as circunstâncias de nossas vidas na juventude. Íamos aos bailes, frequentávamos o Pacaembu, fazíamos incursões na represa Billings e brigávamos com meninos de outros bairros. Jogávamos futsal na hoje extinta quadra do Boca Júniors e dividíamos as emoções quando alguém se apaixonava por uma garota.<br>Hoje, esse elo se dispersou. Tivemos as duas baixas, como já falei e, embora esses elos estejam dispersos, não estão perdidos. O alinhamento desta amizade começa em São Caetano do Sul, com a Mizinha, passando por São Paulo com o Natal, Ariovaldo, Aristeu, Moacyr e os demais, seguindo para Bragança Paulista com Luiz e a Loy, Barra Bonita com Juarez e Suely, findando em Bariri com o Nêgo e a Soninha. No ápice desta triangulação, estou eu, aqui na longínqua Bahia, mas unido em espírito e saudades de todos.<br><br>As tardes na velha Rua Santo Antônio já não são mais as mesmas de outrora e, nos ecos de saudades de muitos, ainda se pode ouvir as algazarras promovidas pela turma da família Avoleta, que foi e sempre será, uma grande família. Obrigado, meus queridos. O amor, a gratidão e o respeito serão sempre constantes neste universo de amizades e saudades que comigo carrego e em relação a todos. Deus os abençoe e os contemple com Sua Santa Misericórdia.<br><br>E-mail: [email protected]<br>