Numa revista de abril último, uma foto. Relativamente a fatos da memória paulistana. É uma reprodução – diz a legenda que a foto é de 1937. Sem data, porém. Um bonde aberto, da então "The São Paulo Light". Light, da qual meu pai foi operário por 35 anos, no Cambuci. A legenda refere ser a Brigadeiro Luís Antônio. Coisa que, para mim, não me sugere. Já vi tal foto como sendo (mais provável, mesmo) da "Rua da Liberdade" (a atual Avenida, bem mais larga hoje).
Na tal foto, o bonde circula ao lado de bois. Ou de vacas? O certo é que de bovinos. Alguns deles. Certamente animais trasladados de alguma das muitas chácaras, que delas havia no longínquo 1937. Bonde aberto, carro nº 1073, tracionando um "reboque" (trêiler). No letreiro do bonde – ortografia da época – "39 – Vila Marianna". Deve ter sido a linha "Ponte Grande – Vila Marianna". A qual por certo não devia passar pela Brigadeiro. Vacas e bois, nas ruas, não os vi – quando eu moleque, na Vila Mariana – embora houvesse chácaras. Apenas via o homem que vendia leite de cabra, as cabras tocando aqueles sininhos: ding, ding, ding.
Para quem não folheou essa revista – ou nunca andou de bonde – vale, por curioso, comentar: homens de chapéu, paletó e gravata – o que era comum nos anos 50 e 60 (chapéus, certamente Ramenzoni, do Cambuci, ou Cury, de Campinas, conforme anúncios, não?). Já os bondes verdes de Santos, do SMTC (parecido com CMTC), esses bondes tinham dois estribos: paralelos, um sobre o outro, muitos devem lembrar. Paulistanos mais distraídos – aqui acostumados com um estribo só – bem poderiam dar boas caneladas, lá na orla, não? Recordo que os cobradores de bondes lá de Santos, de uniformes cáqui, faziam soar um apito, de metal reluzente, de som igual ao dos guardas de trânsito do Rio de Janeiro. Os cobradores da CMTC – lembram? – tinham fardamento azul.
Mas bonde igual ao da foto, andei neles quando moleque, sim. Principalmente nos da linha 23 – Domingos de Morais. A qual então saía do abrigo da João Mendes. Não mais da Sé – como nos mostram jornais dos anos 40, por exemplo. Em 1954, eu tinha sete anos. Tempo em que o bonde 27 – Vila Mariana – com um "n" só – parava defronte ao Liceu Pasteur: não mais vinha da Ponte Grande. Aliás, em 1952, uma linha de ônibus da CMTC praticamente começou a cobrir o trajeto, originário do bonde 39. Era a linha "diametral" 10 – Norte-Sul, que parava no Largo Dona Ana Rosa.
Saudosismo à parte, sempre gostei dos bondes. Mesmo com todo (razoável) desconforto que proporcionavam os carros abertos.
Bancos de madeira, transversalmente, em fileiras paralelas. Duro de num bonde desses subir quando já bem cheio, passageiros no estribo. Para a gente se deslocar, na fileira, não tinha onde segurar, por exemplo. Em sendo carros abertos, não havia janelas e vidros, óbvio. Daí, uma vez baixadas as cortinas listadas, de lona – em dias de chuva – não se avistava a rua. Frestas entre as cortinas baixadas não impediam – no inverno – de entrar – mesmo sem pagar passagem! – um ventinho danado… Na hora de descer, era fazer soar o "ding" da sineta, acionada por meio de uma cordinha: aquela mesma que o cobrador usava para avisar o motorneiro: "toca o bonde!". Mal dava para ser ouvida…
Pois o bonde da foto era daqueles que tinham duplo comando. Isto é, duas "frentes", pois usados em linhas singelas. No começo dos anos 50, esses carros abertos começam a ser fechados, de um lado, pela CMTC, nas oficinas. E lá por 1955, esses mesmos bondes abertos viram como que um novo tipo de camarão. Restam, apenas, bondes abertos pequenos, da linha 24 – Belém.
Outros fatos. A Domingos de Morais – onde tomávamos condução – era uma via "pródiga" de bondes, não? Várias linhas por lá circulavam. Ei-las, recordando: 23 – Domingos de Morais, 27 – Vila Mariana e 66 – São Judas Tadeu – que saíam da João Mendes; 30 – Bosque da Saúde; 47 – Vila Clementino e 104 – Santo Amaro – São Judas Tadeu, que passavam na Domingos só em pequeno trecho. Assim como duas outras: Vila Clementino – Vila Madalena e Vila Mariana – Lapa. Sem esquecer que, na Domingos de Morais – ao lado da Praça Teodoro de Carvalho – era o belo predião da estação de bondes. Inapelavelmente demolido.
E justamente o bonde Vila Clementino – Vila Madalena foi quem me "instigou" a empreender, certa vez, bela caminhada! Eu, que mal conhecia Vila Mariana (onde morava)… Em 1961, com 13 anos, num comecinho de noite, estava fazendo entregas lá por Pinheiros. Isso, quando irrompe um "blackout" – em grande parte da Cidade! Como voltar? Ônibus? Àquela hora, lotados. E iam para o Centro, pois deles não havia – à época – para os lados de Vila Mariana. De lá, só mesmo o bonde citado. E com o "blackout", lógico, os bondes pararam: inermes e inertes. Acabara-se-lhes (temporariamente) o sangue elétrico.
E vim assim: caminhando, seguindo os trilhos do Vila Clementino – Vila Madalena: da Fradique Coutinho até a Domingos de Morais, altura da "Panificadora ABC" – inesquecível, de tão bonita. A micro-maratona: Teodoro Sampaio, Doutor Arnaldo, Paulista, Praça Oswaldo Cruz e – por fim – Domingos de Morais! Uns sete ou oito quilômetros depois, em casa! Às escuras, ainda!
Uma bela caminhada, para mim. Em que o eventual cansaço deu lugar à expectativa. Afinal, eu apreciando paisagens – não obstante a escuridão – até então desconhecidas. Aprendendo referências. Valeu! Gostei.
Viro a página da revista. E deixo o bonde 39 eternamente caminhando ao lado dos bovinos. Numa Brigadeiro que (acho) não deveria ser. Bonde, pessoas, casas, vacas e bois: documentados – informa a legenda – no longínquo 1937 (sem data, porém), por Claude Lévi-Strauss. Como página virada também, fica minha infância em Vila Mariana, povoada de bondes da CMTC (e alguns do SMTC). Hoje, aos 61 anos, uma caminhada daquelas seria no sentido anti-horário: por certo, a expectativa é que daria lugar ao cansaço! A Teodoro Sampaio, por exemplo, nem de longe lembra a de 1961…
Concluindo: em 1937, Vila Mariana era com dois "enes". Com a reforma ortográfica de 1941 ou 42 – não me lembro – fica um "ene" só. E – curioso, se não estranho – certa vez, algum tempo atrás, uma linha de ônibus – cá da região – aplicou, por conta própria, uma reforma. Indicando que ia para a estação do metrô, no letreiro constava só "Mariana"! Castrou a "Vila"! Inadmissível. Um fato que nem mereceria foto. É belamente VILA MARIANA, intocável. Imutável. Isto posto, resta exclamar: "Viva São Paulo"!
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