Uma barbearia na Vila Pompéia

Meu tio Carmelo tinha uma barbearia na Vila Pompéia. Italiano forte, cabelos muito negros e abundantes, gestos largos e sorriso de menino, que contrastava com seu porte avantajado, era um homem simples e generoso.

Ali em seu salão, tudo era motivo para boas e prolongadas conversas: o último "bilhete" do Prefeito Jânio Quadros, o preço do café, o sucesso de Isaurinha Garcia, o novo filme de Gina Lollobrigida, a milhar que não deu e, sobretudo, futebol.

Ao lado dele trabalhavam mais três "oficiais" competentes e bem humorados: o Sr. Barros, corinthiano fanático (é redundância), o Sr. Jamil, são paulino morno, e o Sr. Elias, evangélico, e que se dizia torcedor de Jesus Cristo.

Duas ou três vezes por semana eu freqüentava o salão do tio com a certeza de que, na primeira folga, ele me levaria até o bar mais próximo e me compraria algumas balas. Sorvete raramente. ("você se constipa e sua mãe briga comigo"). Voltava para o seu trabalho e eu me sentava, comportadamente, pegava uma daquelas velhas revistas, folheava, folheava, tentando compreender e decifrar o mundo.

Meu tio, palmeirense – ou palmerista, como ele preferia -, contava sempre (e era verdade) que o lendário goleiro Oberdan Cattani era seu vizinho ali na Rua Desembargador Valle, o que lhe dava muito orgulho e causava viva impressão nos demais.

Na semana que antecedia os grandes clássicos, as provocações entre os barbeiros, os fregueses (que mais tarde virariam clientes) e os "sapos" que por ali costumavam transitar ou fazer ponto eram intensas, mas tudo feito com muita alegria, de forma saudável e respeitosa. Raramente perdiam a serenidade.

Nas segundas-feiras, jogos realizados, todos permaneciam em silêncio, calados, como se houvesse um código de ética entre eles, e o clima era de funeral. Mas, mesmo assim, o torcedor do time vencedor me brindava com um sorriso maroto que não conseguia disfarçar e uma piscadela, meneando a cabeça, discretamente, em direção ao perdedor. A partir das terças, retornavam as gozações, as desculpas de sempre dos perdedores, e o juiz e sua mãezinha jamais eram poupados.

Nada de "Mancha Verde", ou "Gaviões" nos estádios, que ofereciam segurança aos que pretendiam, apenas, assistir a um bom jogo de bola. Às vezes "pipocava" uma briga nas gerais, com o inevitável corre-corre da torcida, mas os policiais, em pouco tempo, dominavam a situação, e os briguentos iam para o camburão sob vaias da galera. Muito divertido.

Brigas violentas e "acertos de contas" à saída dos estádios, como hoje, que quase sempre terminam em tragédia, JAMAIS! Torcida organizada, somente a do São Paulo, cujo torcedor-símbolo era o General Porfírio da Paz, que foi vice-governador dos paulistas. Pequena e comportada, não inspirava nenhum temor e era vista com simpatia até pelos torcedores adversários.

É difícil de acreditar, eu sei, mas perguntem ao Laruccia, ao Lopomo, ao Chammas, ao Ligeirinho, ao Giglio e a outros companheiros que aí estão e não me deixam mentir! Juro que escrevi a verdade, somente a verdade, e quero que o Corinthians volte à segundona se estiver mentindo!

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