Um velho livro esquecido na gaveta

Acredito que muita gente tem em casa uma gaveta de um velho móvel onde são guardadas coisas das quais não cogitamos nos desfazer. Velhos cartões postais, contas pagas, panfletos diversos de pizzarias delivery, receitas médicas, propaganda de candidatos a presidente em eleições antigas, alguns recortes de jornais… 
 
No último sábado, resolvi vasculhar a minha gaveta e eliminar alguma coisa desnecessária e, no meio da papelada encontro um velho livro de poesias entitulado "Cancioneiro do Amor", publicado em 1952 pela Livraria José Olympio Editora. Fez parte da Coleção Rubáiyat, uma antologia organizada por Wilson Lousada. Ganhei essa preciosidade de uma antiga colega de trabalho chamada Dagmar. Tive o prazer de trabalhar com ela na firma Comissária e Mercantil Iris S.A, lá na Rua do Tesouro nº 47. 
 
Essa moça casou-se com outro amigo, de nome Geraldo Pereira, o qual além de trabalhar na administração da CMTC na Al. Nothman, também atuava como comediante na antiga TV Tupí, sob o apelido artístico de Gariba. Morava no bairro do Pari e nas horas de lazer jogava futebol no clube varzeano denominado Luzitano.
 
Folheando as páginas já amareladas pelo tempo, encontro uma folha de papel dobrada. Abro a folha e lá está um texto escrito pelo jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues. Fiquei imaginando o porquê de aquela folha estar no livro, seria para alguma namoradinha? Não consegui decifrar, mas como o nosso conturbado mundo está precisando de um pouco de poesia, para aguçar a nossa sensibilidade, tomo a liberdade de publicá-lo, diz o texto de Nelson:
 
"Se eu pudesse – se os deuses permitissem – teria assistido hoje ao teu despertar. E, então, teria feito uma festa de luz, de cor, de aroma. Eu transportaria para a tua alcova toda vibração musical da aurora, todo estremecimento solar. E teria enfeitado os teus cabelos com o mais lúcido e macio dos raios de luz; e teria espargido sobre os teus ombros o perfume mais suave da manhã; e teria prendido no teu riso a pétala mais diáfana. E, quando te levantasses, eu faria com que pisasses rosas frescas e voluptuosas; e assim teus pés teriam como que sandálias de perfume…"
 
Velhos textos, velhos livros, antigas lembranças que de vez em quando vem povoar nossa memória e nos transportam para momentos felizes de nossa existência.