Um sonho, um pesadelo, uma saudade…

A visão de nuvens escuras – prometendo temporal – até hoje remexe em minhas emoções mais escondidas e de lá retira a recordação de um triste dia de tempestade, passado na querida Vila Nova de minha infância.

Não me lembro de ter vivenciado temporais tão terríveis quanto os daquele tempo. Geralmente, os dias de verão começavam azuis e bem quentes. No começo da tarde, nuvens escuras e carregadas já se vislumbravam na distante linha do horizonte, o que nos empurrava a tirar a roupa do varal e recolher os brinquedos espalhados. Não tardava e despencava uma chuva sem igual e um sem parar de raios e trovões assustadores. Assim era quase sempre.

E, foi em uma dessas tardes de verão que, mesmo com previsão de tempestade, fui até o portão de casa dar uma “espiada” nas brincadeiras que a meninada da rua ainda promovia em alegres alaridos.

De repente, no meio daquela algazarra toda, algo chamou minha atenção: era um dos nossos coleguinhas que, montado em um cavalo, vinha do fim da rua em nossa direção. Onde ele teria conseguido aquele cavalo?… O fato é que, todo altivo e orgulhoso daquela façanha, lá estava ele, com sua figura que estava lembrando um príncipe de contos de fadas. Ao passar por mim, dobrou levemente o corpo em uma espécie de reverência e, para 'mexer' ainda mais comigo, me 'lançou' um surpreendente:
"Olá menina bonita – quer casar comigo?"
E, sem parar, exibindo um maroto sorriso nos lábios, continuou subindo a rua no seu cavalo e virou a esquina para perder-se dos meus olhos em direção ao 'campinho' de futebol, que ficava no outro quarteirão, logo ao lado da chácara de verduras do seu Domingos.

Até então, ele nunca tinha brincado comigo daquele jeito… E, lá fiquei eu, meio abobalhada e mergulhada nas asas de uma voraz imaginação que me transportava – ora ao início das deliciosas emoções de uma primeira 'paquera', ora a um sentimento de 'birra' por ele ter ousado 'mexer' comigo daquele jeito… Coisas de criança. O certo era que pela primeira vez – mesmo de nariz empinado – eu começava a vê-lo com olhos diferentes e meu coração batia descompassado.

Os minutos se passavam e os pingos da prometida chuva tardavam a cair, embora o céu estivesse cada vez mais negro eu ainda continuava no portão, mergulhada em pensamentos, quando um súbito e ensurdecedor trovão me acordou dos sonhos e me fez 'voar' assustada para dentro de casa. – "É mais uma tempestade seca" – ouvi minha mãe dizer, enquanto eu corria para meu quarto, pedindo para Santa Bárbara afastar aquele temporal e seus raios para algum lugar distante.

De repente, gritos de desespero começaram a vir da rua. Despencamos-nos atônitos para o portão e foi com o coração apertado de medo, que – tentando decifrar aqueles sons terríveis – consegui juntar algumas frases:
– “O Toninho morreu"
– “Ele estava no campinho assistindo o jogo"
– "Caiu um raio e matou o Toninho"…

Aconteceu então, muito mais forte, a sensação de um segundo raio despencando, desta vez, sobre minha consciência… Um turbilhão simultâneo de dor e incredulidade me dominando, tomando conta de mim. Do que me lembro, é que me peguei correndo freneticamente do portão de casa para o meu quarto e do quarto de volta para o portão, em desabaladas e continuadas carreiras sem sentido. Não via, nem ouvia mais nada.Não conseguia pensar, mal conseguia chorar. Só tinha vontade de gritar. Gritar o grito mais alto como para acordar de um pesadelo. Por fim, recordo que caí estática na cama e lá permaneci por um tempo quase sem fim, tentando entender o que não fazia sentido, olhos perdidos no vazio, ausente de mim…

Naquele dia não choveu. Que pena. Talvez se tivesse chovido o Toninho não teria se aventurado a montar em um cavalo e ido assistir ao jogo de futebol.

Foi isso… Eu tinha onze anos e o Toninho doze. Repartíamos uma infância repleta de sonhos, ensaiando um futuro de descobertas.

Para mim, a vida continuou seu rumo, com novas tempestades e dias azuis, implacável nas tristezas e alegrias, somando sonhos desfeitos e grandes realizações que hoje formam o patrimônio de minhas memórias.

É de lá que retiro, uma vez ou outra, lembranças que me fazem companhia nos tranquilos momentos que reparto comigo mesma – assim como esta – que ainda me traz lágrimas aos olhos – mas que também “banha” meu coração de ternura e saudade de um amigo que ainda vive dentro de mim como a lembrança de um anjo que nos presenteou com sua presença por doze infinitos anos…

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