Um poeta…

Gostaria de ser poeta e enaltecer minha, nossa cidade de São Paulo. Para isso, precisaria ter nascido num barraco de uma favela qualquer, ter uma infância sofrida, passado fome, ter sido maltratado pela madrasta, pisoteado pelos parentes, ignorado pelos amigos. Precisaria ter dormido ao relento, não ter um vintém no bolso, ter sido perseguido e expulso da escola entre outros sofrimentos…
 
Estava passeando, como faço todos os dias de manhã, pelas alamedas do parque Continental, residencial na zona oeste de São Paulo, entre o formidável conjunto de árvores de várias espécies. Respirando aquele ar puro da manhã ensolarada, com vento frio (vocês já notaram como é gostoso andar nos dias de sol em pleno inverno?), me assaltaram essas idéias, e comecei um papo com meu fiel companheiro, o M-2, amigo inseparável há mais de 82 anos, nascemos juntos.
 
Pela felicidade de ainda poder andar, ver, sentir na própria epiderme as sensações de paz e tranquilidade, não tendo sinais de senilidade, tendo a saúde dentro dos limites da idade – com alguns comprimidos cumprindo sua missão de mensageiros das últimas novidades dos grandes laboratórios em benefício da humanidade… Vou tentando contornar certos desencontros na harmonia inconsequente de nossas existência.
 
– Você está ouvindo, Modesto? – pergunta M-2
 
– Sim, são trechos de óperas, cantadas pelo trio Plácido, Carreras e Pavarotti, grandes interpretes, de vozes potentes, uma beleza de CD…
 
– Não mexe com você essas músicas, não trazem certas recordações? Procure se lembrar, Modesto, garotos ainda vivíamos correndo, pulando, brincando com aquela turma. Garotos, como nós, cujos nomes fogem de nossa memória… Andó, do “esgota latrina”; Romão Spin, Luizinho, Cascão, sobrinho do Ando; Heitor, que tinha irmãs bonitas; Pinto, por incrível que pareça, o único barês, natural de Bari, sul da Itália, com sobrenome “Pinto”. A maioria italianos, todos de Polignano “a Maré, província de Bari, sul da Itália.”
 
– Lembro sim, das portas, das janelas das casas na rua Assumpção, na Travessa do Gasômetro, no velho e saudoso Brás. Se ouviam essas músicas… Quantas alegrias que essas melodias nos fazem recordar. Não que entediamos de trechos de óperas ou de canções napolitanas. Meu Deus! Parece que foi ontem… Ouça M-2, o “Ride Pagliacio”, da ópera “Il Pagliaci”, de Leoncavalo… Lembra? Essas músicas tem a magia de nos transportar pra outros tempos… E são antigas, algumas são do século XIX… Tem pessoas que não gostam de óperas, o que é perfeitamente compreensível mas, pra nós, M-2, por testemunharmos estes momentos, e gravarmos na memória, o êxtase que nos provoca é algo indescritível. Um misto de alegria e tristeza, por nunca mais se encontrar com estes amiguinhos, nossos vizinhos, nossos parentes, todos agarrados em nosso torpor, em nossa incontrolável tristeza diante do passar dos anos. Quanta saudades, quantas alegrias, quantas tristezas… Ouça essa M-2, “Nessun Dorma” da ópera Turandot, de Puccina, o agudo final do Pavarotti é algo de arrepiar… ouça…ouça…“Vinceró…Vinceró”.