Embora tivesse conhecido São Paulo lá pela década de 50, ainda adolescente, eu decidi encarar essa “Selva de Pedra” em 1973, quando vim tentar melhorias na minha vida profissional. Trabalhava em Ponta Grossa (PR) com repórter da sucursal do jornal O Estado do Paraná. Isso depois de ter corrido aquele estado, trabalhando em Londrina, Mandaguari, Maringá e Cascavel. Minha cunhada Lucineide esteve em São Paulo na casa de um tio, Paulo Sampaio. Naquela época era uma jovem meia “louca”. E essa doida escreve-me uma carta dizendo que o tio Paulo trabalhava na Folha de São Paulo e já que tinha arrumado emprego para tanta gente… Sugeriu que eu tentasse.<br>Mostrei a carta para o chefe da Sucursal, João Batista Cottar. Como ele já tava de saco cheio de mim, ele incentivou eu aceitar a idéia. Fez um bom acerto e peguei uma grana relativamente boa. Para não gastar muito, despachei a mudança por trem (Rede Ferroviária São Paulo Santa Catarina) e embarquei com a esposa Julia e a filha Juliana para São Paulo. Na Rodoviária Júlio Prestes pegamos um táxi. Nosso primeiro destino seria a casa de meu cunhado Rubens, que morava em Diadema, no ABC. Tinha um medo tremendo de que o taxista me enrolasse e ficasse dando voltas pela cidade para engordar o valor da corrida. Lembro que ele disse que iria pegar o “Minhocão”. Concordei para despistar, mas nem sabia o que aquilo significava.<br>Dias depois fui apresentado para o tio Paulo Sampaio. Gente finíssima. Trabalhava no setor de manutenção da rotativa, encarregada da impressão da Folha. Seu genro Guerino era o chefe dos linotipistas. Na aquela época a Folha usava esse processo. Os dois tentaram arrumar-me um emprego de repórter. Chegaram até a interferir com outros diretores. Mas eu era um recém-chegado e não tinha o Registro Profissional, como jornalista. O processo estava rolando pelas gavetas do Ministério do Trabalho, em Curitiba. Resultado: não conseguia nada.<br>Um dia, fazendo uma visita no jornal “Notícias Populares”, conheci pessoalmente o Moacir Jorge. Ele escrevia uma coluna espírita. Cumprimentei-o pelo seu trabalho. Ele disse que tinha um programa na Rádio Record e sugeriu que eu fosse lá pela manhã. Pensava que fosse para ser entrevistado. Chego à emissora, era na Av. Miruna, 713, Aeroporto, o Moacir me apresenta para o jornalista Nerino Esmeraldo Paschoal, chefe do Departamento de rádio-jornalismo que, imediatamente, mostra uma máquina de escrever e pede que eu faça um teste. Mostrei o trabalho e ele diz na minha cara: “Ta ótimo. Pode começar amanhã. Esteja aqui às 4h da manhã”.<br>Confesso que não acreditei. Estava desempregado depois e rodar todo aquele imenso prédio do Grupo Folhas, na Alameda Barão de Limeira, 425. Começava a minha trajetória profissional nesta megalópole. Como morava de favor na casa desse cunhado, em Diadema, tinha que acordar às 2h30 e sair a pé até o centro de Diadema (uns 6 km). Pegava um táxi para me deixar na Rádio Record. Depois descobri que no Jardim Miriam tinha ônibus que passava na esquina de onde trabalho. Aí dobrou minha caminhada: ia a pé da casa do meu cunhado até a praçinha do Jardim Miriam, acredito que uns 10 ou 12km, tinha que economizar dinheiro.<br>Na Rádio Record desempenhei a contento minha função. Era um dos responsáveis pela redação do “Jornal Falado” que entrava no ar às 7h. Depois das 7h30 a Record entrava em cadeia com a Jovem Pan (também jornalismo). Durante o dia eu ficava fazendo rádio-escuta e preparando os noticiosos que iam ao ar de hora em hora. Acabei recebendo o apelido de “Paraná”. Acho que nem precisa esclarecer as razões. Conheci gente famosa do radiojornalismo, como o Zamcopé Simões (Bom Caráter, Amigo!), Wilson Kiss, que fazia um programa policial no estilo do Gil Gomes e Afanásio Jazadji. Saul Galvão, do Grupo Estado, trabalhava na Rádio Eldorado e foi comandar o jornalismo da Rádio Record. Depois de especializou em gastronomia. E tantos outros feras.<br> O Nerino era um ótimo profissional e um AMIGO com letras maiúsculas. Gostava de beber seus aperitivos, e isso chegou a prejudicá-lo. Tenho lembrança de que um dia ao sair do trabalho à tarde deparei-me com o grande humorista Walter Dávila. A TV Record funcionava ali. Na lanchonete era comum cruzar com tantos outros “fenômenos” da arte televisiva. Parecia até que estava sonhando. Aquele caipira vindo do interior do Paraná que só via aqueles personagens através da tela do televisor, estar ali de cara a cara.<br>Logo de início fui personagem de dois episódios: um pitoresco e outro trágico. Comecemos pelo primeiro. Depois de preparar o programa jornalístico da Rádio Record, dei uma saída para tomar um lanche. Fui a um bar na esquina. Disse queria lanchar e ele sugeriu um “churrasco”. Topei e aguardei. De repente o português coloca diante de mim um prato com um pão, no meio um bife com molho a vinagrete. Dei bronca perguntando do churrasco. Ele também dá a bronca dizendo era aquilo. Fiquei puto da vida, mas tive que comer. Acontece que no Paraná esse tipo de lanche é conhecido por “Paulistinha” e o churrasco nada mais é do que um “espetinho”.<br>A trágica foi durante uma madrugada. Todas às vezes o motorista do ônibus parava numa esquina (não me recordo bem qual) próxima à Record. Numa dessas vezes era outro motorista. Dei sinal, mas ele não parou. Foi parar bem adiante. Reclamei. Dei bronca. De repente ele pega um revólver e passa a me agredir a golpes de coronhadas. O sangue desceu em questão de minutos. Eu fiquei ali todo ensangüentado. Cheguei à Rádio Record os seguranças me encaminharam direto para a sala do Wilson Kiss que acionou a PM. Fui levado para o OS e medicado, depois para um Distrito Policial para prestar queixa. Uma viatura foi atrás do motorista, mas ele já tinha abandonado o ônibus e fugido. Nunca soube do resultado desse Inquérito Policial.<br>Mesmo trabalhando na Rádio Record, eu não esquecia da Folha. E também me preocupava com o meu registro profissional. Pedi licença uma vez e fui para Curitiba. O funcionário mostrou o processo dizendo que faltava alguns detalhes. Numa segunda viagem, cheguei à Curitiba de madrugada. Só que o Ministério do Trabalho tinha expediente após as 12h. Fiz hora nas imediações. Fui o primeiro da fila. Quando o funcionário me atendeu, reconheceu e trouxe minha Carteira Profissional com o devido registro. Confesso que vibrei. A partir daquele momento não poderia mais ser discriminado para exercer a profissão de jornalista. Mas isso é assunto para outra oportunidade. Tem muito chão ainda.<br><br><br>e-mail do autor: [email protected]