Quero prestar aqui uma justa homenagem a um personagem que marcou nossa infância, a minha e a de meus primos. Era um cachorro que pertencia a minha avó Carolina: o Jipe. Um simpático vira-latas, branco com manchas castanho-claro e castanho escuro pelo corpo. Gordão e meio prognata, parecia estar sempre sorrindo. Aturava nossas brincadeiras com a melhor e maior das paciências.
De uma ingenuidade que beirava o cruel, colocávamos pregadores em suas orelhas. Ele suportava pacientemente. Ficava quietinho enquanto comemorávamos casamentos fictícios entre ele e uma galinha chamada Cinderela (também grande companheira nossa), esperando até que cortássemos o bolo de terra e milho que fazíamos no quintal. Aguentava sem se importar quando o enchíamos de toalhinhas de crochê vermelhas, a título de capa de super-herói. E parecia adorar nossas brincadeiras.
Minha mãe dizia que ele era um cachorro que, quando morresse, iria diretamente para o céu, tamanha era sua bondade.
Às vezes saía e ficava um ou dois dias sem retornar. Mas nunca se perdeu. Sempre voltava e aparecia às vezes até meio sujo por ter se metido em brigas ou enfrentado tempestades. Bastava abrir a porta e lá estava ele.
Uma vez, como sempre fazia, acompanhou minha avó desde a Lapa até o bairro da Luz, tendo entrado no trem, saído e seguido a dona até a Igreja Nª. Srª. Auxiliadora, onde era colaboradora desde os tempos de solteira, quando morava na Rua da Graça (Bom Retiro).
A "Vó Carolina" bem que tentou pedir para que ele não a seguisse, mas o Jipe era voluntarioso e não a obedeceu. Fiel como sempre, foi o melhor dos guarda-costas, não a abandonou até mesmo quando ela entrou na igreja.
Nem é preciso dizer que o padre da paróquia se aproximou da velha senhora, perguntando se o animal lhe pertencia, pedindo para que ela o levasse para fora do sagrado recinto. Muito respeitadora, ela obedeceu e, numa bronca, insistiu para que ele ficasse fora do templo.
Ao sair, o Jipe não se encontrava mais. Ela tentou procurar, mas não o encontrou. Então retornou triste, sabendo que as crianças sofreriam muito com o desaparecimento.
Mas inteligente como ele só, dois dias depois, ao abrirem a porta da casa da mãe de meu pai…. lá estava ele. Atravessou sozinho a cidade de São Paulo e voltou.
Um belo dia o Jipe morreu de velhice. Com seus 17 anos e o corpo sofrido pelo envelhecimento, ele voou diretamente para o céu, como certamente adivinhou minha mãe.
Todos, sem exceção choraram e lamentaram a perda.
Mas o mais engraçado é que durante anos, ao passearmos pelo bairro da Lapa, encontrávamos diversos vira-latas quase clones do velho Jipe. Ou seja, em suas "sumidinhas" o cachorro tratou de espalhar uma tremenda prole.
Jipe, obrigado a você, esteja onde estiver… pois coloriu com muita alegria os dias mais felizes de nossa infância.
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