Um instante no metrô II

Segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011, primeiro dia útil após o término do horário de verão. O céu de um azul ímpar e o sol forte nos lembra que ainda é verão e o dia promete ser quente. Após muitas atividades, saí de apressada.

Senti-me em sintonia com a natureza ao observar no caminho alguns estridentes quero-queros protegendo o ninho no gramado de um jardim; bem-te-vis ouriçados lembrando que poderia, em algum momento do dia, chegar a chuva diária; o brilho da luz do sol sobre as folhas das árvores que se moviam ao leve toque de uma brisa refrescante, o florescer de alamandas e ibiscos, enfim, o calor do verão explodindo em cores e sons nos mais inusitados lugares da cidade.

Fluxo intenso de pessoas e carros, nas calçadas e avenidas. Um novo dia começa em São Paulo. Senti-me energizada com aquele movimento da cidade que não para.

Penso que o melhor do horário de verão é quando ele acaba. A sensação de que há uma hora sobrando no início do dia é muito boa e nos convida a aproveitar o tempo para, por exemplo, buscar um remédio antes dos compromissos rotineiros.

Assim encontro-me na Estação Dom Pedro II do Metrô rumo à Estação Sé para pegar a Linha Azul e, posteriormente, a Linha Verde até a Estação Consolação, na Avenida Paulista.

São 07h22 da manhã e não vejo rostos sonolentos e bocejos; vejo trabalhadores com mochilas nas costas apressados, vejo jovens estudantes uniformizados e descontraídos em meio a sorrisos. Enfim, são os mesmos perfis de todos os dias, porém, hoje há mais luz e rostos mais vibrantes. Penso que só pode ser devido ao término do horário de verão.

O Metrô é excelente em todos os aspectos, porém, apesar do intervalo mínimo entre os trens, todos passaram lotados na Estação Pedro II que é a última antes da Estação Sé (ponto de cruzamento entre linhas e de fluxo intenso em todos os horários, principalmente em horários de pico; e descobri que 07h22 é um horário de pico).

Após sete tentativas frustradas de entrar nos trens, eu já estava irritada, muito atrasada e acreditando que em São Paulo tem gente demais. Ao ver o oitavo trem chegando, falei:
– Agora vai!

Dei um impulso e entrei na vaga de um senhor que saiu do trem com uma mala de viagem. Ufa, consegui!

Quando percebi, estava com minha cabeça nas axilas de uma jovem bem alta e magra que parecia modelo. Gosto do "Soft Raspberry", da Victoria's Secret, porém, aquela situação estava embaraçosa e, assim, tentei virar de costas, ficando de frente para a porta.

Resultado: meu nariz ficou prensado no vidro da porta, meu cotovelo esquerdo na testa de um rapaz que já estava me olhando feio, minha bolsa estava em algum lugar entre minhas costas, minha nuca nas axilas da moça alta e meu pé direito embaixo de algo que eu não sabia bem o que era e nem daria para saber naquele momento, mas sabia que doía muito. Senti-me absolutamente enquadrada nas expressões "sardinha dentro da lata" ou "embalada a vácuo".

Olhei através do vidro da porta e vi do lado de fora duas pombas brancas salpicadas de manchas pretas pousadas na mureta da plataforma. Ambas olhavam e curvavam a cabeça para os lados como que estranhando aquela cena bizarra e querendo entender o primitivismo dos seres humanos desprovidos de asas e necessitando se locomover daquela forma.

Senti-me ridícula e impotente diante da situação, mas só me restava esperar e tentar relaxar (se é que era possível).

O trem partiu bem devagar e no meio do percurso reduziu a velocidade até parar no túnel. Em minha frente estava o número 6155 escrito em meio ao concreto cujo cinza que era quebrado por um limpo corrimão amarelo que acompanhava todo o túnel. “O pessoal do Metrô capricha na limpeza”, pensei.

Uns 2 minutos depois ele seguiu novamente: 6155… 6154… 6153… 6152… De repente uma voz disse:
– Estação Sé. Senhores passageiros, por favor, desembarquem pelo lado esquerdo do trem.

Pensei muito na tentativa de me localizar em relação a onde seria o lado esquerdo e o lado direito do trem e cheguei à conclusão que meu dolorido nariz estava prensado na porta do lado direito. Disse para mim mesma:
– Alguém deve estar de brincadeira…
Como eu poderia chegar do lado oposto se nem o meu dedo mindinho eu conseguia movimentar naquele instante?

O trem parou e do lado de fora muitos rostos querendo entrar. Meu nariz já vermelho e amassado deve ter sido o motivo pelo qual um pirralho apontou o dedo na minha direção e deu uma tremenda gargalhada.

A porta do lado esquerdo se abriu e não sei como (e nunca vou saber) cheguei à porta almejada sentindo-me nascer de novo ao ser arremessada para fora do vagão. Ufa! Ar para respirar!

As portas do lado direito se abriram logo que saí e a multidão entrou numa massa humana se espalhando em busca dos poucos lugares disponíveis, inclusive o pirralho "sarrista" puxado pelas mãos de sua mãe, acredito. Senti-me aliviada.

Após retomar o fôlego, me dirigi à plataforma rumo ao Jabaquara e, enquanto andava, apreciava o enorme e impactante mural bem no centro da Estação Sé.

O sol iluminava o centro entre as plataformas como se fosse um cilindro de luz que descia do céu até o piso preto emborrachado. Senti-me inebriada por aquela luz e pela arte na grande parede de concreto.

Olhei bem ao meu redor, vi muita gente e lembrei-me do menino sobre o qual citei há alguns meses, logo no início do horário de verão. O rosto, as roupas, os pés descalços e o olhar tristonho e indiferente veio à mente e involuntariamente olhei para o lugar onde o vi pela primeira e última vez.

Onde e em que condições aquela criança estaria naquele momento? Quem seria o responsável por sua educação? Que futuro ele teria? Estudaria? Teria com o que se alimentar? Perguntas às quais nunca terei respostas.

Senti-me triste e por um instante interiorizei uma oração desejando que alguém tivesse surgido e lhe guiasse por bons caminhos oferecendo oportunidades de um futuro melhor.

Respirei fundo e retomei meu caminho e entrando no também lotado trem da Linha Azul, percebi que todos daquele vagão deixaram os assentos azuis (para deficientes, idosos e gestantes) livres.

Logo após, na Estação Liberdade, duas idosas japonesas entraram e todos, entre sorrisos ou olhares respeitosos, lhes deram passagem até os assentos azuis. Senti-me orgulhosa da educação e cidadania dos paulistanos. Percebi que ainda há esperança.

Assim é São Paulo: inesperada. Numa simples manhã ensolarada, quantos são os sentimentos e sensações que ela nos desperta fazendo-nos descobrir que estamos vivos e fazemos parte desta cidade que pulsa intensamente a cada segundo.

Se aqui estamos, por um motivo ou por outro, seja por uma breve passagem ou até o fim de nossos dias concluímos que fazemos parte do contexto e de tudo que acontece neste espaço, protagonistas do hoje e do agora.

Se me perguntarem se gosto de São Paulo? Claro que sim!

Ouso, porém, sugerir que, se possível, evitem os horários de pico, nem que seja para acordar com uma hora de antecedência, principalmente se forem embarcar na estação anterior à Estação Sé (com ou sem horário de verão).

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