Um final (in)feliz

Meados dos anos 1980, minha sogra, Maria, agora na paz do Senhor, em uma de suas costumeiras estadas em nossa casa, anunciou a Myrtes, minha esposa, uma novidade.
Já beirando noventa e quatro anos, mediana estatura, delgada, audição e visão já comprometidas, com uma torturante artrose a lhe desgastar a vontade de viver (viria a falecer com noventa e sete), comunica a visita, no "próximo domingo", de sua irmã Tereza, a tia Tereza, tão íntima e comentada pela minha esposa e que, depois de termos saído do Braz, em 1969, nunca mais havíamos visto. Maria, além da Myrtes, tem o filho Vitório e a filha Eunice, os dois mais velhos que a minha esposa.
Trazida por uma das filhas, Olga, tia Tereza, com quem o relacionamento familiar é muito bom, transmite uma alegria contagiante em Maria, pois, devido a idade avançada das duas (tia Tereza ainda mais velha), raramente se vêem e a disposição e tempo dos respectivos filhos e filhas, com suas próprias famílias e compromissos, impedem constantes e mútuas visitas.
Maria, na alegria e prazer que sente em ver e conversar com sua irmã e sobrinha, passa o melhor domingo do ano, apesar dos males que a aflige. No decorrer da semana ainda fala da visita, comentando que talvez seja a ultima vez que vê sua irmã, agradecendo a nós por termos recebido, com carinho, as visitas.
Mulher simples e humilde, Maria mostra sinceridade e contentamento.
Nesta mesma semana, quinta ou sexta-feira, Myrtes atende ao telefone, é sua prima, ouve, na medida do possível, fica estática, perde a (pouca) cor da face, chama a mãe, pousa o aparelho e diz: mãe, tia Tereza morreu.
Myrtes apanha o telefone novamente e conversa com a prima: Como foi, ela esteve aqui no domingo, puxa! Onde vai ser o velório, cemitério e outras informações.
No carro, a caminho do velório no Hospital Leão XIII, no Ipiranga, Maria, em prantos, fala sobre a irmã e a visita do último domingo, confirmando a previsão de que viu a irmã pela última vez, naquele dia. Myrte aproveita e me diz que a voz da prima, no telefone, estava um pouco diferente, meio seca, como se estivesse dando uma informação qualquer. Reação de quem perde a mãe, deduzi.
Alem dessa irmã, Maria tem mais um irmão, vivo, Antonio, boníssima e simpática pessoa. Ao adentrarmos a área de estacionamento, encontramos, no pórtico, tio Antonio; abraços e choros entre irmãos, Maria segue pra uma das salas do velório.
Nesse momento, enquanto eu dava os pêsames ao tio Antonio, dizendo a ele que o último domingo passamos juntos, como se fora uma despedida, ele me olha, com um misto de zomba e incredulidade, arqueando os lábios e tombando a cabeça de lado. Sem querer interpretar melhor seu gesto, fui direto à sala em que estava a defunta. Lá chegando, encontro Maria debruçada sobre o cadáver, num copioso e lamentável choro, baixinho, porém, sentido pelos presentes que pareciam surpresos com tamanha demonstração de amor. Vejo minha esposa, num canto, conversando com uma das primas, Rose, da parte do tio Antonio, indagando:
"Onde estão as primas Olga e Odete?" – Afinal, pensou Myrtes, é a mãe delas e elas é que deveriam estar aqui.
"Não sei – diz Rose – estou aqui desde manhã cedo e não vi nenhuma das duas".
"E sua mãe, a tia-madrinha Telespra, como está? Soube que ela está bem doente…".
Rose olha pra Myrtes, como não entendendo a pergunta.
"Onde ela está? Não entendi… Minha mãe, você quer dizer…".
"É, sua mãe… Por que, qual é o problema?…".
"Problema nenhum, Myrtes, minha mãe está aqui, ó, no caixão".
Myrtes quase cai de costas, a ficha atingiu o ponto nevrálgico da sua estrutura eletrônica, olha pra mãe ainda na atitude de carpideira, derramando lágrimas pra um defunto errado, sua cunhada, também Tereza. Conhecida, na intimidade, como Telespra, mas que, a Rose, ao falar com a Myrtes, no telefone, deu o nome certo da mãe, sublinhando, "minha mãe Tereza" e não deu o seu.
Essa necromédia poderia passar despercebida, afinal trata-se de uma cunhada e não de uma irmã, menos lamentada, talvez. Mas, ocorre que, essa cunhada, a falecida mulher do tio Antonio, madrinha da Myrtes, por razões de fórum bem íntimo, seria a última mulher no mundo por quem a Maria iria derramar uma só lágrima sequer. Há dezenas de anos sem se verem (eu não a conhecia…), não havia razão alguma pra estarem nesse velório, muito menos, prantear. Aí começa a parte alta do "imbróglio". Minha mulher agarra sua mãe, tentando arrancá-la de cima da falecida e dizendo que não era a tia Tereza, sua irmã, e sim a tia Tereza do tio Antonio, a Telespra. E quem é que conseguia arrancar Maria de lá? Sua precária audição, somada ao sincero lamento, nada iria demovê-la de sua última homenagem à irmã. Foi preciso a Myrte gritar em seu ouvido: "Não é a tia Tereza, pó!". Maria deu uma freada do tipo "cavalo de pau", levantou a cabeça, cortou o choro num "stacatto" digno de um breque de "samba do crioulo doido". Olhou pra Myrtes e em seguida pra morta. "Por isso achei que ela estava mais gorda…".
"Eu entendi tia Tereza," começa a Myrtes já fora do recinto, "nem sabia que era a Rose, pensei que fosse a Olga e ela nem uma vez falou Telespra”.
Carreguei as duas até um bar próximo dali. Na saída encontramos o tio Antonio, o viúvo, conversamos e ele me disse estranhar quando falei que a Tereza (sua irmã) estivera em minha casa e ele me disse que sua mulher, a Tereza (Telespra), estava hospitalizada havia dois meses. Riu com a irmã, sabendo há muito das desavenças e conflitos que havia entre elas. Antonio, pra amenizar o clima, contou que ele, também, ao acompanhar um féretro de um amigo, indo pro Quarta-Parada, num cruzamento com semáforo, foi surpreendido com outro enterro cruzando, se atrapalhou, seguiu a fila de carros, pouco familiarizado com o trânsito de São Paulo (mora em São Bernardo) e acompanhou o enterro até o cemitério da… Vila Mariana.
O mórbido se torna hilário quando encarado com seriedade.

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