Passava das 8h daquela manhã de junho, o inverno era rigoroso. Agasalhados, eu e minha adorada mãe Izabel nos deslocamos até o bairro da Vila Formosa, bairro populoso da capital, com a finalidade de ser matriculado no Colégio Interno Dona Cleu; mamãe, viúva, não poderia me alojar em seu emprego de doméstica em uma tradicional família da Bela Vista, bairro boêmio da capital paulistana; nós, oriundos da cidade de Joinville – Santa Catarina, naquele ano de 1950 viemos tentar a sorte, a vida rural no sul estava difícil, São Paulo ofereceria, pela sua grandeza, boas oportunidades.<br><br>Após pegarmos um bonde no centro, chegamos ao local. Então, incontinentemente, uma grande porta de ferro se abriria para nos receber, confesso que no momento senti um certo temor e não era para menos, pois, outras crianças choravam copiosamente devido à separação de suas mães, as lágrimas eram sentidas, tocavam o coração. O que aconteceria mais para frente, para mim, perguntaria aos meus pensamentos, não obtendo resposta imediata, era eu um garoto resignado com acontecimentos anteriores, nada me assustaria, tinha como conforto que minha mãe viria todos os domingos me visitar, a sua linda presença renovaria o meu estado de espírito, pois eu era apenas um garoto de oito anos incompletos iniciando a vida. Meus outros dois irmãos ficariam no Sul, aos cuidados de parentes, a separação dos irmãos foi inevitável.<br><br>Após a apresentação formal, fui alojado com outras crianças em um amplo dormitório e recebi um surrado uniforme de brim azul e colocado à disposição uma cama junto com um cobertor, aliás, meu companheiro por muito tempo. A hora de dormir era sagrada, não se admitia nenhuma algazarra, pontualmente às 20h todos deveriam estar deitados, a disciplina era rígida, aí daquele que não obedecesse, punições aconteceriam aos desobedientes. As noites iniciais foram mal dormidas, faltava o doce carinho maternal. Orava aos céus pedindo proteção. Então, logo as 6h do dia seguinte soaria um sino barulhento, vindo de um funcionário que acordaria todo mundo para o banho matinal obrigatório, aliás, frio demais, pois o local não dispunha de chuveiro elétrico, só de pensar que tomaria todo dia esse banho frio sentia um certo calafrio.<br><br>No internato, meninas e meninos eram separados por uma ala do edifício, era proibido ter um contato com o sexo oposto, não acontecia uma interação. O dia a dia era constituído da aprendizagem das primeiras letras, com uma severa professora, e de brincadeiras de esconde-esconde no imenso pátio, local este onde os meninos colocavam seus colchões molhados para secar devido a incontinência urinária de alguns garotos, não faltavam as inevitáveis gozações…<br><br>As horas das refeições eram sagradas, acorreria a rigidez em cumprir os horários, as 12h, pontualmente, os bandejões eram oferecidos aos já famintos como eu, isso porque o café matinal era servido as 7h, portanto, um longo espaço, sendo que certa vez ocorreria algo repugnante: larvas, digo melhor, bichinhos passariam livremente no meio do meu prato de arroz; soube-se posteriormente que as cozinheiras não escolhiam os alimentos, colocavam diretamente com saco e tudo nos amplos panelões. Não acreditava.<br><br>Nós, então, não víamos a hora de chegar novamente o dia de visita, os domingos, no nosso íntimo, demoraria a chegar, contava ansioso os dias da semana nos dedos, pois mamãe traria as frutas e o delicioso bombom “Sonho de Valsa”, cujo invólucro vermelho guardaria com carinho no meio da minha primeira cartilha, que ironia, Caminho Suave, onde aprendi as primeiras letras.<br><br>O dia de visita, para a minha angústia, passaria tão rápido, mamãe retornaria para a rotina de seu árduo trabalho e eu na minha jornada de interno, essa prisão tinha que terminar um dia, não via a hora de transpor, definitivamente, àquela porta de ferro que um dia se abriu para mim…<br><br>Chegou o dia de Natal daquele ano, todos nós internos, após ter tomado um banho caprichado e colocado um novo uniforme, agora na cor amarelo, fomos deslocados até o salão nobre para ouvirmos um concerto ao piano, a canção “Noite Feliz” daria um ar emotivo, alegre, haveria, posteriormente, a presença das mães para trazerem os presentes de Natal, sendo que a maioria não compareceria; lágrimas, choros ouviam-se das crianças, era lamentável. Eu já me conformaria, pensei: mamãe não apareceria, mas, de repente, sorrindo, essa linda mulher de olhos azuis veio ao meu encontro dizendo que estava me buscando para morar com ela no bairro da Casa Verde, tinha se casado com um simpático italiano; foi o mais lindo e maior dos presentes, pois ficaria para sempre livre desse modo de vida. A porta de ferro do colégio agora se abriu para irmos embora. Confesso que, mais adiante, caminhando alguns passos, nem olhei para trás, pois, por bem ou mal um dia estive em um colégio interno.<br><br><br>E-mail: [email protected]