Meu amigo João era um cara especial mesmo. Nascido em Santarém, na beira do Rio Tapajós, dez anos mais velho que eu, só isso já o tornava para mim um cara misterioso e cheio de segredos.
Como um cara nascido na floresta amazônica tinha vindo parar em Santana?
Em meados dos anos 60?
E não era só isso, o cara havia estudado em uma escola de missionários americanos e falava inglês fluente e conhecia a fundo a história norte-americana. Foi vaqueiro na Ilha de Marajó, locutor de rádio em Belém, grande conhecedor de MPB, coisa que para mim, “beatlemaníaco” fanático, soava ainda mais estranho, como diabos um cara podia gostar de um tal de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto, se em nosso mundo só existiam Beatles, Elvis e Rolling Stones ?
Muito estranho esse cara.
Tinha opiniões maduras e gostava de interpretar as situações da vida de forma filosófica e sempre bem-humorada. Ri muito quando após ouvirmos atentamente a música “Remember when” do famoso conjunto The Platters, ele após um longo silêncio, fitando lugar nenhum diz: “essa música é o final de um sexo…”.
Mas naquela noite estávamos lá, eu e esse amigo em uma esquina da Av. Leôncio de Magalhães, parados, fumando, quando de repente, estaciona em nossa frente uma viatura da RUPA, a temida ROTA da época.
Não percebemos eles chegarem. Ficaram nos olhando de dentro do carro, uns quatro caras mal encarados, ameacei sair, ele diz: “fica aí, não se mexa”, e eu fiquei petrificado de medo e terror.
Meu amigo João frio, encarando os caras, dando longas tragadas no cigarro.
De repente um dos caras, faz um sinal de positivo pra ele, e a viatura arranca e some pela avenida.
Olhei para meu amigo espantado.
Pô o cara te conhece, perguntei, e ele sorrindo tira do bolso da calça uma carteira com o símbolo da Polícia Federal, o cara tinha sido agente da PF em Belém-PA !
Outra vez em um bailinho no Alto de Santana, aniversário de 15 anos de uma bela menina, a coisa começou a ficar tensa, pois várias turmas estavam no lugar. E um cara alto e forte, que mesmo de noite usava um daqueles óculos escuros de aviador, todo empombado, querendo aparecer, mexia com todo mundo. De repente correria, brigas, gritos, o pai da mocinha ameaçando chamar a polícia… Corri para fora, ficando escondido atrás de uma árvore olhando toda a confusão, quando do meio do tumulto quem me sai todo sorridente, com seu indefectível cigarro e usando os óculos escuros que há poucos minutos era do metido que começou a briga ? Meu amigo João é claro!
Um dia nossa velha TV Invictus queimou. Que fazer agora? Ele tranquilo, com apenas uma chave de fenda identifica a válvula queimada, vai até a esquina em uma loja de eletrônica levando a válvula queimada, volta com uma nova, faz a troca e a velha TV nos alegra novamente.
“Caramba, João!”, digo, “Até disso você entende e como vamos pagar a válvula nova?”. “Fica tranquilo” ele diz, “o cara não me cobrou nada!” Como? Saiu de graça? E ele na maior tranquilidade diz: “eu que ensinei eletrônica pra ele!”
Uma vez sumiu, ficou uns três anos sem dar as caras em Santana. Na época eu trabalhava no Jumbo Aeroporto, na loja de motos e carros quando alguém atende o telefone da loja e diz que uma pessoa do SNI queria falar comigo. SNI? Em 1975? O gerente de nossa loja me olhou meio assustado, dizendo, acho que deve ser engano e mandou o atendente confirmar, sim, era do SNI, Serviço Nacional de Informações, a CIA tupiniquim!
Atendo, quem era? Ele meu amigo João, tinha voltado, estava vindo até ali para nos encontrar e almoçar juntos!
Tinha ido para Manaus. Lá conheceu uma moça, filha de um fazendeiro, ela grávida, casaram escondidos. O pai da moça, coronel da região, mandou dois jagunços atrás dele, um ele matou no tiroteio o outro fugiu não antes de matar a moça sem querer e lhe meter dois tiros na sua barriga, cujas cicatrizes mostrava pra mim, dizendo, seis meses no hospital pqra recuperar! Pegou uma grana, comprou um Chevette e veio sozinho dirigindo de Belém para Sampa, onde o carrinho chegou tão mal tratado que foi vendido para um desmanche.
Um dia partiu novamente pra Belém. Nunca mais voltou.
Soube anos depois, pela sua própria mãe, que tinha falecido num acidente de carro na Via Dutra voltando do Rio para Sampa.
Será?
Não acredito!
Assim como Elvis que largou tudo e virou caminhoneiro no interior dos EUA, meu amigo João deve estar comandando algum barco de turistas estrangeiros pelos rios da Amazônia, muito louco e muito feliz, como ele sempre dizia.