Um Brás teatral!

O Brás dos operários, das festas, dos imigrantes e das comidas saborosas, tem sido citado aqui no site, frequentemente e belamente, por quem nasceu e viveu naquele bairro.

Eu não tenho a mesma verve em descrevê-lo, contudo vou tentar efetuar esta tarefa utilizando-me das inusitadas lembranças que tenho sobre o bairro. A estranheza deste relato está no fato que vou utilizar minhas memórias "teatrais", memórias que, apesar de terem sido implantadas em minha mente pelas andanças no mundo fictício dos palcos, fizeram-me apaixonar por aquela região dos "oriundi".

Nos idos anos de 1987, Celso Frateschi e Cassio Scapin, muito conhecidos no círculo teatral, recriaram o clima nostálgico do Brás num espetáculo chamado "Relimbranza". Frateschi e Scapin utilizaram-se de depoimentos de moradores, como também da prosa e poesia do irreverente Juo Bananere, alter ego do jornalista Alexandre Marcondes, para realizar este feito. A encenação aconteceu na Oficina Mazzaropi, projeto este da Secretaria de Cultura, que ocupava um espaço que já havia sido um Olifício, ali na Visconde de Parnaíba. Assim sendo, com aquela estrutura arquitetônica de fábrica, com um galpão para abrigar o Brás imaginário do espetáculo, para a plateia cabia apenas fazer parte daquela viagem para recompor o passado do bairro. Ana das Marmitas era o nome de uma personagem que interpretei nesta encenação, e que vai ser a co-autora destas memórias, ajudando-me a falar das belas lembranças ali do Brás. Vale ressaltar que, no contexto do espetáculo, este personagem era apenas um tênue fio condutor, que serviu como pano de fundo para as transformações do bairro sofridas ao longo dos anos, sendo o centro de atração, na tentativa de recomposição daquele mundo extinto do nosso querido Brás.

Dito isto, aqui abro a minha janela do passado e discorro das lembranças do bairro que aprendi a amar por meio das memórias teatrais desta fictícia italianinha residente ali na Visconde de Parnaíba. Naquele Brás na segunda década do século passado nasceu Ana, de ascendência italiana, desde pequena possuía no falar o ritmo gostoso da fala dos oriundi.

Logo que chegou a adolescência começou a entregar marmitas nas fábricas da região, ali pela Visconde de Parnaíba. Participava das festas de ruas, missas, procissões, e até de muitos bailes na Caetano Pinto, ou seja, sempre esteve presente em toda vida social do cortiço. Nos seus afazeres de entregadora de marmitas, seus pés, às vezes já muito calejados, percorreram muitos quilômetros, atravessando os paralelepípedos aparentes de tantas ruas ali da região. Rua dos Trilhos, Gasômetro, Coronel Albino Bairão, Carneiro Leão, como tantas outras ruazinhas e vielas que andou que até perdeu a conta das passadas, tropeços e muitas marmitas derramadas.

Viu a passagem do Zeppelin, que incrédula pensou que fosse uma miragem. Conheceu de perto a fúria de seu pai, quando resolveu namorar o Zé espanhol. Não entendia a tal rixa entre os italianos e espanhóis, pois todos moravam ali, vizinhos de quarteirão.

E assim, Ana namorou, sofreu decepções, casou-se, teve filhos, viu o progresso chegando e envelheceu, sempre morando ali no seu querido Brás. E o som da valsa Rapaziada do Brás de Alberto Marino foi que embalou esta Ana das marmitas já envelhecida, dançando e relembrando com saudades a sua vida Brás de antigamente.

Relimbranza, o espetáculo, que traduziu no seu mundo ilusório do teatro as diferentes fases da vida de Ana das Marmitas e do Brás, presenteou-me com uma bagagem extra de vida e com lembranças não tão ilusórias, pois foram baseadas em fatos da formação deste bairro tão querido.

Pode parecer estranho, e até confuso, que as lembranças dos personagens fictícios no mundo teatral em que vivo fazem com que eu mantenha uma memória paralela, a memória dos meus personagens, contudo para mim são verdadeiras relíquias.

Etel Buss/Ana das Marmitas

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