…estas são para os jovens até 50 aninhos de idade.
Nascido no Ipiranga, Independência ou morte, em 1953, optei por Independência e aí começa tudo.
Naquela época eu ia para a escola a pé, e nada acontecia, ou melhor, às vezes tinha que bater recordes de velocidade para escapar dos caninos de qualquer vira latas… Esta era a violência que sofríamos na época… Que saudades!
Naquela época eu, às vezes, e quando sobrava algum dinheiro, subia no papa filas e ia até a Vila Mariana tomar um sorvete… Não sabe o que é um papa filas? Era uma carreta que ao invés de puxar uma carroceria puxava um ônibus, imaginou? Que saudade!
Naquela época o Museu do Ipiranga, o monumento, o museu dos bichos eram marcos respeitados e muito visitados pelos jovens estudantes à procura de respostas para perguntas que fatalmente iriam enfrentar nas escolas estaduais – claro, pois elas eram mais rígidas que as particulares, acredite se quiser! Que saudade!
Naquela época os jogos da Primavera, promovidos pelo Clube Atlético Ipiranga, eram aguardados pelo ano todo, pois lembravam as grandes batalhas históricas, mas aqui eram esportivas, sem violência e entre as escolas da região… o máximo! O grande médico infectologista David Uip era na época figura comum nestes jogos… Que saudade!
Naquela época fui crescendo e começando a sair do bairro, destino Aclimação, com seu parque que permitia a pesca nas margens, o grande Riviera, cinema de primeira (hoje igreja evangélica que desabou o teto) e, como ninguém é de ferro, o A Chapa já existia e servia o melhor cheese salada do mundo… Que saudade!
Naquela época o Cambuci tinha o largo que recebia o Volpi, pintando suas bandeirinhas entre uma história ou outra ao lado do Andoh barbeiro, que demonstrava suas tesouradas nos clientes que sentavam ao meio fio em troca de moedinhas para aquela cachaça estabilizadora de seus movimentos, imagina só… Que saudade!
Naquela época, indo e descobrindo os outros lugares, chegamos na melhor rua, na mais badalada rua, na rua por onde desfilavam Roberto Carlos, Wanderlea e às vezes o Ronnie Von, a Rua Augusta, cheia de Mustangs, Camaros e Cougars, os mais desejados bólidos americanos, rua que tinha a Galeria Ouro Fino, que vendia a preços de ouro as famosas calcas New Man, Lee, Levis Strauss e Fiorucci, desejadíssimas pela galera endinheirada. E para receber estes e outros carrões o prefeito e os lojistas carpetaram dois quarteirões da Augusta, da Oscar Freire até a Lorena, com carpetes quadriculados e coloridos, tentem imaginar isto… Que saudade!
Naquela época o único shopping era o Iguatemi, na Faria Lima, sempre servindo os ricos e famosos dos Jardins, aliás, na Faria Lima os jovens promoviam os rachas de carros na frente do Iguatemi e do Rick Store, que servia o melhor crepe da região… Que saudade!
Naquela época chegaram as garotas que caíam na nossa lábia e embarcavam nos Opalas, Mavericks V8, Galaxies, Pumas e Gordinis e iam receber nossos amassos dentro do Parque do Ibirapuera, estacionados embaixo das árvores e perto do Coca Cola, que era a única lanchonete que existia dentro do parque para suprir os mais famintos, lá todas as arandelas e lustres eram feitos de garrafas de vidro da Coca Cola… Que saudade!
Bem, chega de histórias, pois como São Paulo ainda era uma cidade sem violências e sem fronteiras e a minha zona sul mais parecia um grande bairro cheio de diversão e entretenimentos, eu ficaria até amanhã lembrando mais coisas da minha infância e adolescência.
Sinto muito se você não passou por tudo isto, não ouviu Beatles e Rolling Stones, não comprou revistas mostrando o festival de Woodstock na banca de revistas importadas do aeroporto de Congonhas (só tinha ela), não comprou discos de vinil das melhores bandas do mundo na HiFi, ou no Museu do Disco na Augusta, não desfilou na Augusta e Paulista com uma calca Lee empurrado por um autêntico V8 de 300 HP e conversível… Que saudade da minha zona Sul, da minha cidade que um dia já foi calma e suave… Que saudade da minha zona sul de São Paulo.
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