Um alvo minha cabeça

Armazém de pancadas. Saco de areia de Box e outras coisas eram sinônimos que eu ouvia quando pequeno. Tapas do meu pai e de dona Elza, e por mais alguém que gostava de bater. Talvez isso acontecia pelo fato de ser eu muito irrequieto e atrevido, cuja língua era solta até demais. Parece que esse estigma ficou incrustado em minha carne, durante muitos anos. <br><br>O tempo foi passando e tapas foram acontecendo. Aí já fora da minha casa. O primeiro foi de dona Elza, mãe do Zezinho, um amiguinho de rua, aliás vizinho de muro. Deve ter sido lá por 1949-50. A brincadeira era de pega-pega, e ele estava dentro de casa quando foi à rua querendo entrar na brincadeira, fora de hora. <br><br>Era um menino não bem quisto no seio da garotada, por inventar mentiras à mãe sobre coisas não acontecidas, fazendo com que ela batesse boca com a meninada e com as mães também.<br><br>Quando ele, na marra, quis entrar na brincadeira e eu disse que não, com uma barra de ferro deu na minha cabeça, fazendo um galo enorme.<br><br>Voltou a sua casa e disse para a mãe que eu tinha batido nele. Quando ela foi à rua eu estava no pique de costas já terminando a contagem e, virando-se à frente, dei de cara com ela já com a mão engatilhada desferindo uma bofetada na minha cara, para espanto de outras mães que estavam na rua conversando.<br><br>Já nos anos 1960, quando fui defender um amigo de apanhar, tomei uma porrada na cara que nem sei de onde veio e quem deu. Só sei que quando me dei conta via dez pessoas na minha frente estando somente cinco.<br><br>Já nos anos 1970, falando mal do governo ditatorial, vi com o rabo do olho um cara "diferente" no bar olhar para mim. Ele saiu rápido e olhou o número do prédio, que era o bar do Luiz, Rua Tabapuã, esquina Bandeira Paulista. Senti que mais uma paulada viria na minha cabeça.<br><br>Mais do que depressa fui para a Rua Joaquim Floriano e peguei o primeiro ônibus que apareceu. Quando vi estava a caminho de Osasco.<br><br>Mas o pior mesmo estava para acontecer. Só não aconteceu porque o espião teve a cabeça de perguntar o que eu estava fazendo naquele local. Caso contrário minha cabeça ia estourar. Era o auge da ditadura militar (1971). Estava eu no DETRAN, tentando colocar em ordem os documentos da minha Lambretta. Quem ia fazer esse serviço era o Frans Neto, meu colega de Rádio Bandeirantes. <br><br>Frans era locutor comercial, depois passou a ser o repórter de trânsito e setorista do DETRAN. Aproveitava-se disso e uniu o seu trabalho com um bico de despachante. Estando lá fazia serviços regularizando documentos para ganhar uns trocos a mais.<br><br>Fui várias vezes ao departamento de trânsito, pois o serviço é demorado devido à burocracia da época. Teve um dia que fiquei de manhã até a tarde. Então ficava esperando o repórter que tinha um monte de coisas a fazer que ficava fora do seu setor, a sala de imprensa.<br><br>Entre tantas coisas a fazer ele tinha de sobrevoar a cidade de helicóptero (o primeiro a fazer isso). Enquanto ele não aparecia ficava eu conversando com Benê Braga, da rádio Jovem Pan, ou Aluane Neto, também da mesma organização. Ou então várias pessoas também esperando o Frans, que tinham dado a ele o serviço de despachante.<br><br>Certo dia, depois do almoço, parece que todo mundo achou de iria lá para ver se seu problema tinha sido solucionado. Parecia uma mesa redonda. Várias pessoas da imprensa estavam à espera dele. Vicente Leporace, Jota Ávila, Manoel Ferreira e sua esposa Ruth Amaral, compositores de músicas carnavalescas. Também um funcionário do Palácio dos Bandeirantes, e um jornalista do Estadão cujo nome não me lembro… Mais, Bene Braga e Aluane Neto a trabalho.<br><br>Foi uma tarde maravilhosa, que me deu subsídios até demais para escrever. Cada qual com seu problema a resolver e xingando o setorista de trânsito, já que as horas passavam e ele não chegava. <br><br>E a turma começou a contar histórias. Começou com os problemas que o Frans tinha de resolver, muitos deles na base da propina. O repórter esportivo Ávila estava com viagem marcada para São José do Rio Preto e seu exame médico estava vencido. Tinha de fazer a mudança naquele dia mesmo sem fazer o exame necessário. <br><br>Preocupado, ele dizia: – Meu amigo, já pensou eu parado numa blitz na estrada com exame vencido? É multa e mais a apreensão da carteira e do carro. <br><br>Era uma das infrações mais graves, segundo o repórter rodoviário, Sargento Ranulfo. <br><br>Manoel Ferreira e Ruth Amaral falavam das músicas que tinham sido compostas, inclusive "o coração corinthiano", um lixo segundo os palmeirenses, que foi gravado por Silvio Santos.<br><br>O funcionário do Palácio dos Bandeirantes, uma figura simpática, foi abordado por alguém que lhe disse: – Pôxa, você, funcionário do Palácio do Governo, preocupado em revalidar a carteira de motorista? Nenhum guarda vai ser louco de te multar.<br><br>Em resposta o cidadão disse: "Eu prefiro andar com meus documentos sempre em ordem, mesmo tendo essas regalias que o poder oferece".<br><br>Foi quando alguém muito curioso perguntou a quem quisesse responder. – É verdade que tal político é viado? Um saliêncio se fez presente, foi quando Leporace se dispôs a responder. – É o que todo mundo diz. Inclusive um político famoso ficou muito aborrecido por ele ter roubado o seu genro, deixando sua filha perplexa. O espanto foi geral diante do que foi dito.<br><br>Nunca tinha ouvido coisas tão gostosas em termos de fofocas.<br><br>Quando Frans chegou já era por perto das 16 horas, e os mais necessitados eram atendidos primeiro. Alguém saía meneando a cabeça por não ter resolvido seu problema. E repórter esportivo saiu da sala de um figurão, feliz da vida, por ter seu documento regularizado e livre de qualquer dor de cabeça. <br><br>Eu era o último da fila, e o Frans pediu para voltar no dia seguinte, pois era já hora terminar o expediente. Fomos tomar café e algumas tietes vieram abraçar ele e pedir autógrafos, e saíram dizendo que ele era um gato.<br><br>Dia seguinte lá estava eu logo cedo. E nada de vir o Frans. Então ficava batendo um papo com o Bene Braga, ia até o térreo, dava uma volta no pátio. Ouvia muitos xingamentos das pessoas exaltadas. Vagabundos, sem vergonhas, ladrões. Isso aqui é um antro de corrupção.<br><br>Pelo menos os jornais estampavam denúncias como as que eu lá ouvia. Então, minha cabeça, o computador da época, ia armazenando tudo. Voltava para a sala de imprensa. Depois novamente para o pátio, até que um cidadão à paisana veio me abordar. <br><br>- Ô meu, o que você está fazendo aqui?<br><br>Eu, já com o saco cheio, por esperar o amigo faltoso, e com cara de invocado, perguntei:<br><br>- Por que você quer saber?<br><br>- Você é folgado, hein cara. Se dê por feliz por não ter levado um tiro na cabeça. Estamos de olho em você já faz tempo.<br><br>- De olho em mim por que, estou fazendo algo de errado?<br><br>Por causa das denúncias de corrupção no DETRAN, e que era verdade. Policiais estavam de olho para saber que era que estava lá de espião para levar à justiça provas do que de errado estava acontecendo naquela autarquia.<br><br>Quando disse que estava à espera do Frans, para resolver problemas de documentação, o cara deu um suspiro de alívio. Um tapinha nas costas, e o convite para um cafezinho cremoso foi feito, e uma conversa amistosa teve início.<br><br>- Sabe que é, cara, estão de olho no pessoal daqui e a bomba está por estourar – foi o início do papo, para se justificar da mancada que tinha dado. <br><br>Pensei comigo. Ainda bem que o estourado não foi eu. <br><br>Não demorou muito e a bomba estourou no DETRAN. Muitas prisões foram feitas, por meio das provas conseguidas. Dentre essas prisões, estava o meu amigo.<br><br>e-mail do autor: [email protected]