Ué…

Para o moleque paulistano de seis ou sete anos, naquela São Paulo dos anos 50, estava esclarecido. Hoje, eu tão distante daquele tempo de moleque, a mim me resta o prazer de poder registrar no belo site São Paulo minha cidade. Com o propósito de recordar algo talvez curioso da São Paulo que passou – embora relato sem valor histórico. Uma bobagenzinha.

Ainda moleque eu gostava de exaltar a grandiosidade de Piratininga. Isso por conta da conversa de adultos, como os meus pais, que falavam:
– “Que colosso São Paulo era: fábricas, muitas delas; prédios altos, lojas, cinemas; escolas, hospitais, transportes, a multidão sempre crescente. São Paulo é a locomotiva”.

Progresso e pressa: marcas registradas de uma São Paulo "que não pode parar". Era o que muitos paulistanos falavam, orgulhosamente: São Paulo, coração do Brasil! E também Chico Alves, de parceria com David Nasser, não? Mas o rádio de válvulas (Telefunken?) botava no ar a melodia: Rio de Janeiro, a "Cidade Maravilhosa, coração do meu Brasil!", não? Ao que a cabeça do moleque não tinha dúvidas: o Brasil tinha dois corações.

Deve ter sido em um dos passeios de manhãs de domingo. Eventuais, em que aquela época meu pai me levava para "apreciar" (admirar) a cidade. E então que lugar melhor que o centro? Onde, durante a semana, pressa e progresso tomavam cafezinho – almoçavam e jantavam, não? O moleque admirava. Banco do Estado, Martinelli e Banco do Brasil – "arranha-céus" notórios. Imponências frente a frente. Vale do Anhangabaú, Avenida Nove de Julho (e o túnel, então?), Avenida São João; Avenida Ipiranga, avenidas Rio Branco e Duque de Caxias. A Cinelândia. Galeria Prestes Maia: inovações rolantes – iluminada, limpinha e bem frequentada àquele tempo. Viaduto do Chá e o Mappin – este, se com brinquedos nas vitrines e pipoqueiro à porta… O grande prédio da Light e o Theatro Municipal. Até o Buraco do Adhemar era admirável obra viária do progresso paulistano:
– "Isto é São Paulo!".

E era muitíssimo mais. Então foi que em um dos passeios eu pude ver um deles. Belos e modernos ônibus elétricos. Vermelhões. Novinhos. Talvez na Avenida São Luís. Ou mesmo na Avenida João Mendes. Rua Conselheiro Furtado? Minha memória escapa da precisão – como escapavam as alavancas dos fios da rede aérea. Eram trólebus (meu pai falava "ônibus elétricos") alemães. E se me lembro bem, embora alemães de fábrica, acendiam as luzes vermelhas do freio em inglês: “stop!”. Tinham janelas, maiores do que as já conhecidas dos ônibus paulistanos. E… Ué! Que surpresa! Em vez de duas, três portas! A de trás e a do meio, inclusive, tão largas que eram – cada qual – eram dúplices. Eta São Paulo! Progresso, hein! Até ônibus de três portas…

Foi muito tempo depois que soube, uma vez que sempre me fascinei pelos ônibus de Piratininga, que por volta de 1954 – inesquecível, ano do Quarto Centenário, de uma São Paulo nunca tão encantadora. A CMTC começa a reformar ("recuperar") bondes e ônibus, nas próprias oficinas. E no caso dos ônibus, botando carroceria nova, por ela montada. Ônibus diferentes, mas quase que todos com a mesma "cara", agora: janelas iguais, portas iguais…
Memoriazinha do transporte. Assim foi que, àquela época dos trólebus alemães, a CMTC então botou aquelas carrocerias "padrão" nos ônibus "Mack" americanos e nos Fenemês nacionais. Coincidência – ou os gringos é que "copiaram" as três portas? Para o moleque, uma novidade e tanto (vejam se pode!).

Para localizar no tempo com exatidão eu teria que me valer de jornais de arquivo. Porém – salvo equívoco – ocorreu lá pela metade de 1954, com Jânio Quadros prefeito (ou "alcaide", falavam por escrito os jornais). De quando a CMTC então ganhou os de três portas. E de faróis proeminentes e de frente ornamentada por frisos paralelos. Robustos, foram cerca de 50, que vieram se somar a frota originária de trinta trólebus, de 1949. Até então, trólebus todos importados. Nacionais? Como é sabido, só em 1958.

E naqueles mesmos anos 50 eu ainda haveria de ver os mesmos trólebus alemães de quando minha mãe me levava ao médico (para meu terror), sisudo médico "de crianças"; de nenhum diálogo, cara fechada e avental branco. Para piorar, de receitar Colubiasol, para terror agora de minhas amígdalas! E eu que já era medroso…

Era na Rua Martins Fontes. "Caixa" dos lighteanos e ferroviários. Pertinho da sede da CMTC, número 230. Mais à frente – alguém me explicava – era a tal Rua Augusta, que ia sair na Avenida Paulista. Pela Rua Augusta subiam e desciam trólebus, inclusive os de três portas. Linhas Jardim Europa e Jardim Paulistano. E lá iam os ônibus de quase nenhum ruído. Claro que muitos lembram que àquele tempo nos ônibus a gente subia pela porta de trás. Ao contrário de nos bondes camarões e no Gilda – aliás, estes reformados pela CMTC, nos anos 50, a qual lhes eliminou as portas originárias do lado esquerdo – do tempo ainda da Broadway. Gilda e ônibus reformados que então ganhavam um distintivinho, exteriormente, bem na frente: era a sigla CMTC envolvida por um par de asas. Quem lembra também?

As portas dos elétricos alemães. Explicou o cobrador: uma "sobe", duas "desce", ué! E explicou mais. Que aquela porta do meio era para "ganhar tempo": a pressa do paulistano – agilizar o desembarque. Pressa que era irmã do progresso – pressa anterior à chegada daqueles trólebus à Paulicéia. Três portas: estava explicado.

Quando moleque eu gostava de "ler" as plaquetinhas dos ônibus. Ou as do lado de fora ou as sobre o assento do motorista. Plaquetinhas que eram a identificação: a marca do ônibus, lugar de origem, data de fabricação. Aqueles alemães? O “nomão” todo – só com a ajuda "internetária", não? Assim de cabeça o que eu lembro é que era… Pronúncia suave: "Henschel-Üerdingen-Siemens".

Lembro-me também dos veículos derradeiros, já nos anos 60. Pintura creme e laranja da CMTC. Estropiados – pelo uso e mais por má conservação – batendo lata na linha Santana – Ipiranga (ao lado do Leão XIII). Era o fim da carreira. No rumo da sucata. Não obstante no belo museu restarem dois ou três – fotografias, claro. Mesmo porque – raríssimas exceções – a CMTC não guardava veículos com o propósito de memória do transporte. A própria memória dela, não? E não tivesse sido a abnegação de “ex-ceemeteceanos”…

Que a Alemanha arrasada pela Guerra que tragicamente ela inaugurara na Polônia, aquela mesma Alemanha (na verdade, eram duas) exportava até trólebus. Como os que para cá vieram. Cruzando o Atlântico nos conveses. Por certo da "Hamburg Süd", não é? Belos trólebus alemães de três portas. Tornaram-se paulistanos da nossa rotina…

Ônibus elétricos alemães que, para o moleque paulistano, de pronto o deixaram intrigado:
– “Ué? Três portas? Para quê?”
– “Claro moleque, uma "sobe", duas "desce"”.

Para a pressa de nós, os paulistanos da terra do progresso. Da São Paulo da garoa, São Paulo que terra boa…

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