Naqueles idos dos anos de l956, desembarcamos na estação Júlio Prestes em São Paulo, vindos da cidade de Ourinhos. Era uma manhã do mês de junho, dia 24, no qual se comemorava o dia de São João, além de ser, também, um dos dias mais frios do mês.
Nunca tínhamos estado em uma cidade grande e quando chegamos fora da estação, nos assustamos. Oh, quantos carros, quanta gente! Até parecia uma grande festa pelas ruas se comparado à minha pequena cidade. Peguei a mão de meu pai e caminhamos, eu, minha mãe, meu pai, minha irmã e meu irmão mais velho.
Para mim, tudo era novidade. Olhava aqueles prédios altos e sentia até tontura. Os bondes passavam e o barulho era ensurdecedor. Tudo era um conto de fadas. A cada esquina acontecia uma coisa nova. Mas eu não entendia a expressão no rosto das pessoas e a pressa que essas tinham, pareciam que estavam fugindo de alguma coisa… Hoje eu sei que era e é a São Paulo que eu amo tanto, cidade essa que não pode parar nem de dia e nem de noite.
Atravessamos a Avenida Tiradentes para enfim chegarmos ap ponto de ônibus que meu pai dizia ser o de número 58, Parada Inglesa. Eu e meus irmãos estávamos curiosos e ansiosos: nunca tínhamos andado de ônibus e a expectativa era imensa!
Foi quando de repente meu pai disse: “Vejam! Lá vem ele! É o ônibus da Parada Inglesa! Assim que ele parar, vocês entrem devagar e sentem-se nos bancos!”. Entramos e minutos depois, passamos por Santana, Carandiru e, por fim, ao meu querido bairro Parada Inglesa.
Quando chegamos à altura da Avenida Ataliba Leonel, próximo à Rua 24 de Outubro, que hoje mudou de nome para Paulo Avelar em frente ao famoso bar da época, Bar Danúbio, estavam colocando paralelepípedos para melhorar o bairro. Já caia a tarde quando chegamos à casa de meu tio Caetano Mérola, que na época era presidente do clube de futebol Danúbio, que por muitos anos reinou neste bairro. Foi uma festa em família nossa chegada em sua casa: já nos aguardavam para inclusive participar da festa junina para comemorar o dia de São João. Lembro-me bem que nos fundos, em um grande terreno, estavam armando uma grande fogueira que todos faziam na época, com muitos fogos de artifícios, quentões, pipoca, batata doce e para todos aqueles que se aproximavam, era oferecida uma bebida e comida; não precisava ser da família para participar, tinha-se o prazer de receber.
Assim, logo que chegamos, após os cumprimentos e beijinhos, nos enturmamos com primos e primas e depois que nos instalaram, fomos ver a molecada soltar balões nas ruas do bairro, principalmente na Rua 25 de Fevereiro, onde se situava, para maior lembrança de todos, a farmácia do Zezinho e do Heitor. Tudo parecia um sonho! No céu eram tantos balões que já não sabíamos se eram estrelas ou balões brilhando em grande quantidade; quando apagavam as tochas, eles murchavam e com o peso do sereno da noite, eles caiam. Eu, meus primos e a garotada saíamos para tentar pegar um destes balões, que no final viraram um monte de papel rasgados e queimados.
No fim da festa, só restava um resto de fogueira, pipoca pelo chão, um cheiro de quentão e uma fumaceira, que misturado com o frio da noite, parecia uma grande serração.
Na semana seguinte, arrumamos uma casa onde fomos morar na Rua Adelino de Bortolo. O tempo passou e foi grande o pessoal que nos acolheram e passaram a fazer parte de nossas vidas.
Sempre vivemos nesta região onde passei parte da infância e minha juventude. Éramos muito conhecidos: meu pai era o Sr. José, pedreiro que trabalhava com meu tio Caetano; minha mãe, dona Ana, era dona do lar; meu irmão era conhecido como Osvaldo, Osvaldinho; minha irmã Odete era muito bonita e muito conhecida no bairro, participava de todos os bailes e eventos que a Parada Inglesa oferecia.
Eu era o Jura, moleque travesso, de estilingue no pescoço. Junto com a molecada, saia pelos matos daquele morro do Jardim São Paulo, onde existia uma biquinha de água e só pasto, donde saíamos atrás de passarinhos e canários. Meus amigos foram muitos, hoje não sei por onde anda meus queridos amigos: Tião, Macalé, Zeze, Luiz, Roberto, Moisés, Bolão, meu amiguinho Sakis (um greguinho de olhos estalados e grandes) e meu primo Zé Carlos, que jogou no Cruzeiro de Minas Gerais e no Palmeiras.
Hoje tudo é saudade de um tempo que passou e marcou as jogadas de bolinha de gude nas calçadas, o Grupo Escolar Frei Antonio Santana Galvão (que foi desativado para dar lugar a uma empresa). Quem viveu os anos 60, deve se recordar bem, pois todos estudaram lá e todos devem ter um pouquinho de saudade daquela escola da Dona Branca, diretora muito brava e de cabelos branquinhos, além da Dona Terezinha e de Dona Áurea.
De repente, o tempo nos engoliu e todos sumiram. Todos se casaram e formaram famílias, mas não deixaram de sentir a saudade. A saudade que às vezes bate no peito da gente. Saudade dos bailinhos à tarde, do padre Julio, das freiras.
Hoje o tempo passou, só não passou esta lembrança que mora dentro de mim e aparece em todas as vezes que vou à São Paulo. E, claro, para matar a saudade, tomo o ônibus número 58, Parada Inglesa.
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