Tubaína gelada

Quem viveu a infância nos anos 60 sabe que Tubaína tem um gosto especial. Geladinha então…

Conheci Tubaína num domingo, na casa do tio Cássio. Esse senhor simpático era meu tio-avô. Morava na Pompéia com a minha tia Alice e uma filha, na época solteira, a Zélia. Vez ou outra íamos até lá e, para mim, era um passeio extraordinário. Primeiro porque era passeio e eu adorava sair de casa, olhando as paisagens menos movimentadas aos domingos. Depois, era casa de um familiar e sempre existiam causos para serem contados.

Conta à lenda que o tio Cássio, filho de imigrantes italianos radicado nas Alterosas, era um brincalhão de mão cheia. Quando moço, comprava cavalos velhos e os vendia por novos. Explico: obturava-lhes os dentes, pintava-lhe os pelos, ferraduras novas… e lá ia o pangaré travestido de puro sangue. Um dia o meu pai contou que, depois de uma chuva grossa, o cavalo voltou ao seu estado natural e o tio Cássio não parou mais de rir. Também adorava pintar passarinhos com tintas muito coloridas e os vendia como aves exóticas. Pássaros também pangarés eram vendidos naquela exuberância sem tamanho.
Hoje a gente sabe o quanto uma atitude dessas é considerada criminosa, mas, nos anos 30 ou 40, no interior das Minas Gerais, como considerar a consciência ecológica e cuidado na preservação das espécies? Era tudo farra de gente jovem que não tinha a mínima possibilidade de diversão.

Então passeávamos ali, naquela rua íngreme e cheia de casas de varanda na Pompéia. Eram sempre ensolarados aqueles domingos, o que tornava o passeio ainda mais alegre.

Numa dessas visitas, a tia Alice fez uma mesa com lanche para nós. Tinha o café cheiroso, o pãozinho ainda quente da padaria mais próxima. Várias coisas… e a Tubaína gelada. Eu era pequena e a minha cabeça estava à altura da mesa. Com dificuldade de visão, a minha mãe virou a garrafa e me mostrou: "olha só, maçãzinha!". Tinha, no rótulo, um desenho de uma maçã. Aquilo, para mim, foi mágico!
Eu achei aquele refrigerante a bebida mais gostosa do mundo, inigualável e nunca mais me esqueci. Muitas vezes cheguei a procurar a tal da "maçâzinha", mas nunca encontrei.

Algumas vezes, viajando pelo interior, procurei Tubaína, mas não tinha o mesmo gosto, a mesma doçura, aquela coisa de pureza da infância, da casa do tio, do passeio dominical. Uma vez, numa cidade do norte do Paraná, visitando o meu tio farmacêutico numa localidade chamada Rio Bom, procurei pelo refrigerante. Tinha Tubaína de framboesa. Era ruim como o cão. Mas trágica mesmo foi à experiência na casa da minha mãe, quando morava também no interior do Paraná.
Época de carnaval, a moçada toda se divertindo, samba prá todo lado, fantasias e planos para as noites, as pessoas nos mercados e padarias comprando cerveja às toneladas… resolvi ter vontade de tomar Tubaína. Meu marido pegou a garrafa âmbar, logicamente idêntica à garrafa de cerveja e fomos, na noite da terça de carnaval, à padaria Brasil. O balconista, de rosto cansado, tinha a aparência de já ter trabalhado à exaustão, abrindo inúmeras vezes o freezer para atender a sua clientela ávida por cervejas.

Bem, chegamos à padaria e o meu marido com a garrafa na mão. Um detalhe importante, o Nelson já tinha naqueles anos 80 uma barriguinha levemente avantajada, típica de quem tem sempre um copo à mão… mas jamais tomou cerveja. Aquela protuberância abdominal já era cemitério de boas macarronadas, pizzas, doces, tortas e sorvetes.
Quando ele se apresentou ao balcão, com a garrafa em punho, o balconista abriu o freezer e só perguntou: "Brahma ou Antártica?" Meio sem graça, o Nelson me olhou e falou baixo para o funcionário da padaria: "Tubaína".

Por alguns segundos o rapaz ficou olhando incrédulo, com a porta do Freezer aberta, boquiaberto, paralisado. Sem dizer nada, pegou a garrafa, colocou-a no balcão, não sorriu e nem desejou boa noite.

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