Costumo dizer que a vontade deveria ser a maior das virtudes, porque sem ela não estaria eu, agora, dividindo com vocês mais algumas lembranças gostosas da juventude de minha saudosa mãe em Santo Amaro.
Naquela época, década de 30 e 40 o bairro mais parecia uma cidadezinha do interior, com ruas de terra, na sua maioria, cavalos atrelados a charretes ou simplesmente a espera de seus condutores.
Terrenos baldios ora como parte de casas, quase sempre térreas ou simplesmente "abandonados", à espera de vacas e cabras a aparar seu mato.
Os cachorros dormiam preguiçosamente nas portas dos comércios, alias estes espaços quase sempre freqüentados pelos homens que deixavam as pequenas varandas de suas casas ou janelões abertos para as calçadas, a oportunidade das moças e senhoras também participarem dos acontecimentos de Santo Amaro.
As festas ou bailes promovidos pelo cinema de meu avô Chico Turco, colaboravam para quebrar esta monotonia salutar. Contava minha mãe que festa no Cine São Francisco era algo que ecoava até em vilarejos distantes.
Os bailes de carnaval eram os mais esperados. As moças reuniam-se para combinar as fantasias. Escolhidos os temas tratavam de confeccioná-las; umas colocando em pratica seus dons artesanais outras contratando costureiras do bairro.
Amigas de minha mãe diziam que se deixassem para perto da data da tal festa, dificilmente encontrariam profissionais da costura a disposição. Os rapazes buscavam também nos adereços impressionar as pretendentes ou apenas como divertimento sair do sério dia a dia.
Minha mãe contava que num destes bailes de carnaval, ela apostou com o pessoal de sua turma de jovens que se fantasiaria de homem e de posse de uma bela mascara masculina, peruca para esconder vasta cabeleira e fino bigode "flertar" uma querida amiga de minha avó Belarmina, durante o baile carnavalesco. A senhora escolhida era flexível às brincadeira já que ela mesma em outra oportunidade havia se travestida de bela cigana mascarada e com vasta peruca encaracolada e longo vestido de tafetá vermelho e muitas pulseiras e colares apostou chamar a atenção de um dos filhos do Chico Turco, com aquiescência de minha avó, mãe do desavisado.
Minha mãe dizia que o tal irmão se encantou com a cigana mascarada e contava embevecido que no ultimo dia a misteriosa cigana se revelaria e com certeza se revelou para espanto do mancebo como a velha amiga e confidente da mãe. Durante algum tempo, toda vez que as amigas se encontravam para um bate papo este meu tio arranjava um jeito de sair pela outra porta do sobradão e se safar das brincadeiras.
Bem, voltando à traquinagem de minha mãe, trato feito e tempo estabelecido, partiu ela para a execução. Fantasia pronta e vestida, alguns amigos avisados da traquinagem com tal senhora, foi o alegre grupo para o salão festivo e colorido do Cine São Francisco. O baile já corria solto o flerte já acontecendo; o grupo contando os minutos que faltavam para minha mãe ganhar a aposta.
Dado o horário proposto e para espanto da amiga de minha avó, minha mãe se revela atrás da mascara e do fino bigode. Dizia a assustada senhora e aos risos que sabia desde o inicio de quem se tratava e que também resolvera pregar uma peça a jovem brincalhona, se mantendo interessada no magrelo personagem.
Aposta ganha, prêmio recebido em espécie que de imediato foi gasto em refrescos e sanduiches no dia seguinte ao baile. Realmente o cine São Francisco não só apresentava as películas de Hollywood ou Vera Cruz como as aventuras sadias de seus freqüentadores.
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