Titio "bad boy"

Nos anos 50 o adjetivo talvez fosse beatnick, nos 60, hippie e depois "riponga", só que é difícil rotular uma pessoa, ainda mais sendo ela o seu tio. Aos olhos de criança ele era um aventureiro e até super-herói. Vestia-se de forma despojada, conversava com o cigarro no canto da boca, andava com uma irada motocicleta Norton, às vezes Jawa, e foi um mecânico de mão cheia. A família tinha reservas com ele que usava enorme tatuagem no antebraço, um "pecado grave" naquele tempo.
Ele mostrava publicamente o seu grande amor pela esposa Laura. O nome era Adair, mas chamávamos de tio Dair, e o casamento com moça de família mais abastada foi difícil de acontecer. Os Ventura olhavam com viés negativo para o fortão da motocicleta.
Sempre visitávamos sua casa no Bosque da Saúde e queríamos ficar todo o domingo por lá, pois eram quatro primos, Dodô, Nelly, Laurinha e Dadá. Além disso, fazíamos grande torcida para andar de moto com o tio, mas só quando nossos pais não estavam, pois não permitiam tal loucura.
Lá tive contato pela primeira vez com a babá eletrônica, o aparelho ficava na cozinha, no andar inferior do sobrado e ligado por um fio em outro alto-falante que ficava no bercinho de Dadá no segundo andar. É claro que achamos o novo "brinquedo" muito bom e não dávamos um minuto de sossego. Era um tal de subir e descer as escadas a mil por hora e falar, gritar, assobiar para os demais que ficavam escutando na cozinha, e o pobre do priminho no berço todo agitado, pensando que aquilo era o fim do mundo.
Meu pai tinha uma ligação com o bairro da Saúde, pois trabalhava vez por outra vendendo lotes, para engrossar o orçamento doméstico. Ele dizia inúmeras vezes que se pudesse receber todas as comissões em lotes, em vinte anos ele seria um homem rico. A possibilidade de crescimento do bairro não tinha mistério, pois a capital crescia de forma radial e constante. Qualquer pessoa mesmo sem ser especialista podia ver na aplicação em lotes um negócio de grande futuro à médio prazo. Meu tio manteve durante a sua vida um estilo único e inconfundível, talvez por ser aquariano. E minha última recordação é que, depois dos cinqüenta anos o carro em que andava era um Karmmam Guia.
Todos os sobrinhos gostavam muito de seu astral lá em cima, contando casos e piadas, enfim uma pessoa inesquecível. Deixou-nos há mais de vinte anos e levou o seu grande sorriso para as alturas. Está junto com o "santinho" que tinha numa flâmula na sala, o mascote dos são-paulinos, torcida que passou aos seus filhos.

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