Durante o curso de nossas vidas muitos tipos humanos, usualmente chamados “marginalizados”, adquirem tal importância, que, em muito, superam outros, e nós acabamos por caracterizado-los como “ilustres”. Quantos de nós não se lembra de uma “velha ou velho louco” em nossas infâncias? Ou do “louco da praça”, tal como o curioso personagem do “Cinema Paradiso”, que ao anoitecer começava a “expulsar” as pessoas de “sua” praça? Ou daquele “pinguço” homérico, cuja missão na vida parecia ser encher a paciência de todos? Ou da mulher carola, que ao beber uns tragos dava “shows” para deleite da molecada? E também do mendigo ou do cara meio maluco, amigo de todos na rua, que tomava conta das casas quando as pessoas viajavam, tudo em troca de uns trocados, de um prato de comida, de uns tragos? Em maior ou menor grau de exatidão, é muito provável que muitos de nós tenha histórias mais ou menos parecidas. Isso, porém, certamente são histórias de outros tempos, pois o progresso e as muitas mudanças de costumes assomam, de modo avassalador nossas próprias vontades, assim como a direção dos acontecimentos em geral, dos quais, somos cada vez mais menos capazes de compreender-lhes plenamente o sentido: nos dias vigentes os loucos, os mendigos, os “estranhos” são confinados em asilos, albergues ou manicômios ou relegados a uma condição sub-humana; de certo modo “deixam de existir”: até mesmo determinadas classes de pessoas são “invisíveis” aos olhos das classes ditas “superiores”. Esses “invisíveis” são os chamados cidadãos de segunda ou terceira classes. São aqueles que mesmo sem grilhões e nas ruas – aparentemente livres –, são prisioneiros, despidos de qualquer dignidade.
Contudo, a bem reparar, os tipos exóticos não desapareceram por completos e muitos deles podem ser vistos e reconhecidos por nossas ruas.
Certa vez, enquanto conversava com meu amigo Novaes, que tinha um sebo de livro nas proximidades da Consolação, chegou um tipo, simpático, por sinal, e sem a menor cerimônia foi dizendo: “Depois de Buda e Jesus, eu!” E saiu, com um largo sorriso, confiante, nos deixando atônitos. Mas como! Como pôde surgir ante nossos olhos uma figura do porte de Jesus e Buda e sequer ficamos sabendo o nome dele?! Há tempos costumava ver pelo Centro Velho ou Novo uma mulher, toda vestida com longas vestes brancas ou azuis, lenço de seda na cabeça, que vivia distribuindo alimentos para os pombos da cidade. Muitas notícias ouvi sobre ela, desde que seria uma milionária excêntrica, a alguém que estava pagando promessa ou que simplesmente tinha parafusos de menos ou de mais ou desajustados. E também havia quem dissesse que era apenas alguém que distribuía milho aos pombos… Há também o famoso saltador do “círculo de facas”: muito magro, cabelos compridos, faz uma série de pantomimas anunciando o feito futuro, sábia estratégia visando cativar os indecisos a jogar uma nota ou moeda em sua caixinha. Depois de muita “enrolação”, dá um único e arrepiante mergulho por entre as facas pontiagudíssimas… Há os vendedores de ervas e garrafadas que curam enxaquecas, barriga d’água , impotência, extraem bernes e calos, etc. E tem os surpreendentes artistas “de rua”, malabaristas, sanfoneiros – muitos mirins, cinicamente a serviços de adultos –, duplas caipiras, rabequeiros, verdadeiros “quartetos/quintetos/sextetos”. Nas imediações de onde antigamente se localizava o Cine Cairo (onde em fins da década de 1970 e início de 80 assisti a muitos filmes italianos – comédias eróticas, os famosos “western-spaguetis”, etc.), e próximo aos cinemas pornôs do início da São João, velhas e decadentes prostitutas de ar cansado batalham o PF do dia… Tristes tipos paulistanos e de muitas outras cidades, tipos metropolitanos, enfim… Existe uma mulher que costuma entrar nos vagões do Metrô pedindo esmolas através de uma espécie de ladainha, na qual conta sua história e pede ajuda de qualquer tipo… Outros expõem aberrações físicas com olhar súplice enquanto estendem a mão, entoando pedidos de esmola que lembram “incelenças”,… Reminiscências da “era provinciana”, quando o circo era uma séria opção de lazer. O circo tinha seu encanto e também suas misérias – a música, os trapezistas, os anões, o palhaço, as feras adestradas, a mulher barbada, etc. Ou é apenas um dos lados da “Belíndia”, que por toda parte se mostra com contradições abertamente expostas, tal como os condomínios de luxo com vista para a favela!
De uns tempos para cá os pregadores apocalípticos são presença quase obrigatória, a qualquer hora. Outro dia, numa dessas tardes quentes e modorrentas, andava meio a esmo por ali quando, próximo à esquina da São João com a Conselheiro Crispiniano, um desses pregadores me chamou a atenção: de cima de um caixote de madeira e vestindo um daqueles famosos ternos da Ducal, muito curto para seu corpo alto e magro, o homem fazia jorrar um veemente e enérgico discurso. Aproveitando o clamor popular gerado em torno do assassinato de uma garotinha no seio de uma família de classe média, ele apelava a plenos pulmões para a ausência de Deus por entre as gentes. “Onde vamos parar?”, repetia a toda hora para a pequena multidão que aos poucos se adensava. A princípio pensei que ele se referia a metafórica ausência de Deus no coração das pessoas (como, imagino, deveria estar pensando a maioria das pessoas ali presente). Porém, ele falava era de um suposto exílio de nossa Divindade suprema que, sabe-se lá por que volteios do pensamento, resolvera deixar a humanidade entregue a seus próprios caprichos! O discurso, como todos, era desconexo, mas tinha grande força carismática, prendendo a atenção da multidão, que ouvia cheia de temor. Porém, empolgado, de um momento para outro sua fala tomou um estranho rumo: Deus não havia somente se exilado, mas estava mesmo era perdendo a batalha para o “chifrudo”, o “de-cujus” (tal qual Guimarães Rosa, não mencionava o nome do “outro”). Entre mímicas, grunhidos, saltos e largos gestos, com o olhar alucinado, referia-se aos combates travados entre a Luz e as Trevas ao longo da história… Foi quando notei que as pessoas começaram a olhá-lo com séria desconfiança e alguns cochichavam entre si. Outros pregadores, com Bíblias de várias versões debaixo do braço, começaram a se acercar. Um deles, muito exaltado, gritou: “Cala-te, satanás!” Ao que o outro vociferou: “Não mencione o nome dele, idiota, ou o estará invocando!” E travou-se um impressionante debate supostamente teológico, uns brandindo as Bíblias, outros cruzes ou imagens de santos – uma curiosa união entre os vários credos do cristianismo contra o blasfemo – com as falas intercaladas de impropérios, xingamentos e citações dos textos sagrados, de modo aleatório. Aos poucos, parece que alguns contendores angariaram a simpatia da maioria e esses se acercavam do pregador de modo um tanto perigoso.
Travava-se ali, em plena tarde quente, na esquina da São João com a Conselheiro Crispiniano a Batalha Final do Bem contra o Mal, forças opostas que alimentam a filosofia e a literatura durante toda a existência humana: Goethe, o Yin e Yang, O Senhor dos Anéis, a saga Guerra nas Estrelas, a série Harry Potter, todos tratam do eterno combate luz x escuridão. O singular desse debate aqui na São João é que os dois lados se consideram Luz que por sua vez denominavam o outro como escuridão! Isso vai longe… Percebendo que estava em minoria e o sério risco que corria, o carismático às avessas tratou de sair de cena, de um modo que achei demasiado teatral: com as mãos em forma de garras, saltou do caixote de madeira e gritando ameaças mergulhou entre a multidão, iniciando desabalada carreira avenida abaixo, na direção do Anhangabaú, desaparecendo em segundos. Os que ficaram gritavam hurras, vivas e aleluias!
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