Tempos de machadinho

Era sempre dia de semana, lá pelas 11 horas da manhã. Passava na nossa rua, do bairro operário do Cambuci, um senhor, de poucas conversas, com um terno já de muitos carnavais, aparência simples, mas acho que muito entendedor da alma infantil. Ele ia abraçado a uma caixa bem fechada, larga e fina e na outra mão um singelo cavalete. Madeira modesta, sem grandes apelos, pintada em uma tonalidade verde-escura, e parava na porta da vila da nossa Rua Albuquerque Maranhão.

Aquele homem carregava, no seu silêncio, uma preciosidade que seria carregada pelo tempo e permaneceria nas almas daquelas crianças. Naquela caixa, ele carregava machadinho. Quem viveu os anos 60 sabe o que é machadinho. É um doce extremamente simples. Em um lado da caixa, ficava aquela massa endurecida da cor de creme e, paralelo, seguindo a mesma linha, uma massa rosada. Era comum a criançada sair correndo e pedir o dinheiro para a mãe para realizar aquela proeza. Afinal, aquele senhor passaria de novo no dia seguinte? Só na outra semana? Mistério. Nós íamos ao encontro daquele homem que, enigmático, jamais alguém soube a identidade e não conhecíamos o seu sorriso. Nem de onde vinha. Pedíamos o doce e ele, então, corajosamente, tomava do seu instrumento de trabalho – literalmente um machadinho – e ia cortando a guloseima em pequenos pedaços, colocando o fruto da sua criação em um pedaço de papel grosso, como se fosse o papel de pão. Indescritível o sabor! Inigualável a sensação de aventura ao comprar um pedacinho só daquele doce. E quando não se tinha nenhum dinheiro para aquela façanha, ninguém ficava frustrado, choroso ou com raiva da mãe. Era coisa da vida, “uai”!

E era bom também entender as limitações que a própria vida impõe. Era bom o aprendizado com as negativas. Hoje, somos bem mais equilibrados por termos vivido com os pés no chão, muitas vezes com a cabeça na lua, sonhando um futuro com outras conquistas, venerando o sabor do mundo, mas o machadinho não tinha como sair da memória. Era uma coisa internalizada, impregnada nos lábios, silencioso e puro como uma infância ligeira. E ainda procuro o machadinho quando a vou a São Paulo, olho atentamente pelas ruas de menor apelo comercial, principalmente quando passo por bairros populares. Estou pensando em passar um dia na Mooca, outro dia no Ipiranga, quem sabe no Brás. No Cambuci e na Vila Sônia já estive. Em bairros elegantes nem pensar. Rico não tem ideia do que seja isso. Machadinho… E por falar em saudade onde anda você?…

Ontem, me deu desespero pela receita, escrevi para a Palmirinha “pedindo arrego”, visitei vários sites de culinária, pergunto para os outros, mas em resposta, ouço um tímido e despistante: “então”, ou um “olha só”, “não sei”… E assim caminha a humanidade, perdendo histórias, abandonando doçuras, enfraquecendo abraços… e la nave và.

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