Tive uma infância privilegiada apesar da família grande e humilde, da qual me orgulho de fazer parte.
Na Rua Antonio Lobo, no bairro da Penha de França, fazíamos de tudo, além das brincadeiras tradicionais daquela época como pega-pega, trepa-trepa, balança caixão, cantigas de roda, lenço atrás, passa anel, amarelinha, pula-pula, corda, quente ou frio, queimada, bicicleta e etc., uma marcou por demais minha vida de criança, era o "teatro de rua".
Para que tudo desse certo, fazíamos reuniões da turminha nos quintais e porões das casas, o porão da minha casa também era usado. Lá planejávamos a história, as roupas, a platéia, o ingresso, o narrador, os artistas, os ensaios, o dia da apresentação, a confecção das roupas etc.
No dia marcado, as famílias pagavam pelo ingresso e traziam suas cadeiras colocando-as na calçada, no lugar da apresentação. O dinheiro arrecadado era para repor o que havíamos gasto com as roupas, que eram na sua maioria, feitas de papel crepom mais os acessórios de cartolina, cola, linha, agulhas, purpurina, lantejoulas etc.
O mais interessante era que usávamos apenas as nossas habilidades e criatividade, os adultos não interferiam, fazíamos tudo sozinhos. Nosso teatro era aplaudido pela platéia formada pelos nossos pais, tios, conhecidos e vizinhos lá da rua. A casa da Sonia era sempre a mais usada como camarim, lugar para a troca das roupas, e de lá saíamos para dar inicio a peça.
Que saudades da torcida para não chover, da crença na cruz de sal… Que saudades das roupas de crepom azul turquesa, chapéu de fada e varinha de condão… Que saudades dos sonhos de criança, dos contos de fadas e das cerejeiras do Japão.
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