Meus avós paternos e maternos nasceram no Líbano. Vieram para cá no início do século XX, em épocas diferentes, porém no mesmo navio de bandeira italiana, o Júlio César.<br><br>Do lado de minha mãe eram lavradores e, segundo se sabe, tinham as melhores terras produtoras de uva de todo país. Meu avô José foi primeiro, com mais dois irmãos, para os Estados Unidos, e depois veio sozinho para o Brasil, quando mandou buscar sua família nas arábias, estabelecendo-se no interior paulista. Dizem que foi pessoa extremamente bondosa.<br><br>A diferença de minha tia para minha mãe eram doze anos – tempo em que ficaram longe uns dos outros. Ao todo tiveram cinco filhos, sendo as duas últimas brasileiras.<br><br>Meus avós paternos tiveram a felicidade de virem juntos. A família demorou para se completar, já que o primogênito, meu pai, só nasceu dez anos depois das bodas e tiveram mais outros dois filhos.<br><br>O Gidão Fares mais parecia um germânico do que um árabe, pois sua pele muito alva, seus olhos azuis, além do seu porte físico avantajado, faziam crer se tratar de europeu, e não de asiático (existe na Áustria uma cidade de nome Bludenz). Em Beirute, o Bludeni passou a ser o nome oficial da família, já que eram referidos "aqueles de Bludeni", ou "os Bludenis". Bludeni era o nome da aldeia ancestral.<br><br>Mas o fato é que me lembro das gigantescas mãos do meu avô, e eu brincava com suas veias azuis fazendo-as mudar de lugar ao meu tato. Azul também era a tatuagem em seu punho, como se fosse uma pulseira, mas muito mais tarde soube se tratar de uma escada, que indicava sua profissão: pedreiro ou pintor. A tatuagem denotava respeito. Demonstrava ser trabalhador. Fazia as vezes da carteira profissional.<br><br>e-mail do autor: [email protected]