Esta foi contada por um amigo que era crítico de dança. Não posso garantir a veracidade, mas a procedência da informação com certeza é séria e respeitável.
Reza a lenda que em um famoso teatro da cidade de São Paulo ocorria um evento cultural. Comemorava-se alguma data especial. Alguns artistas da extinta TV Tupi se apresentavam no palco, fossem recitando, declamando, cantando, dançando, ou fazendo os mestres de cerimônia.
Homero Silva, Wilma Bentivegna, Leny Eversong, Lia Marques, Lia de Aguiar, Walter Stuart, Yara Lins, Josey Leão, a Grande Orquestra da TV Tupi, eram apenas algumas das celebridades que se apresentavam.
Era o final da década de 50 e o preconceito corria solto. Um pai, cujo filho revelasse vocação para o "ballet", morreria de desgosto.
O espetáculo evoluía. Cantores aplaudidos, récitas superovacionadas, grandes números musicais. Enfim, era tudo um tremendo sucesso.
Chegou a hora do bailarino se apresentar. Famoso bailarino da época, primeiro bailarino do corpo de baile. Ele, num maravilhoso solo, parecia voar feito pluma. Os gestos eram precisos, mas delicados. Um verdadeiro desenho revelando uma coreografia bem traçada, estudada: "grand jetés", "piruettes", "pliés", "changements", "batements", "pás-de-burées", tudo coordenadinho. Exigia um enorme esforço físico, um preparo fora do comum. Mas tudo era extremamente suave e de um frescor… um frescor, digamos… exagerado.
Terminada a apresentação, o bailarino saiu de cena e se dirigiu ao camarim.
A platéia mais seleta aplaudiu. Mas como o evento era de um público misto, havia também um povão bem popular e não muito fã de ballet clássico. Não é preciso nem dizer que o número não foi do agrado da grande maioria da galera masculina instalada na platéia. O preconceito se instaurou e, aos gritos, esse pessoal começou a emitir um coro em alto e bom som: "Bicha, bicha, bicha!!!". Parecia ter sido ensaiado e não havia nada que desse um fim na cantoria.
O bailarino, sentado em seu camarim, suado, cansado, resfolegando e retirando a pesada e derretida maquilagem, junto ao suor que lhe escorria pelo rosto, ouvindo o tal coro, comentou o ocorrido se fazendo de surdo e disse aos presentes no recinto: "Não, pessoal. Eles pedem para que eu "bise", mas o número é cansativo demais e não poderei dar um "bis". Sinto muito, mas "bis"… de jeito nenhum, pois já estou morto de cansaço!".
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