Sou nascido e criado no Cambuci II

Lembro-me das missas aos domingos na Igreja Dom Bosco, do outro lado da Avenida do Estado, onde após a missa minha mãe nos levava para comer churros e até hoje, segundo pude assistir no programa do Tudo a ver, o velhinho espanhol ainda faz o churro da mesma maneira.
Adorava pegar o bonde aberto na rua da Independência e ir até o Museu do Ipiranga, onde passávamos as tardes de domingo, rolando na grama do majestosos jardins do Palácio Imperial.
Em 1961 ingressei na Escola Técnica Antarctica, mantida pela fundação Antonio e Helena Zerrener, onde estudava das 7 da manhã às 5 da tarde, com aulas teóricas pela manhã e práticas á tarde. Aprendíamos de tudo um pouco. Mecânica – onde eram torneadas as bombas para acoplar aos barris de chope, a carpintaria- onde eram fabricados os engradados para os refrigerantes, a gráfica – onde eram impressos os rótulos para posterior colagem nas garrafas, – fábrica de pregos, a oficina elétrica, – onde aprendíamos a profissão de eletrotécnico, e no período das férias fazíamos estágios nas oficinas e ganhávamos uns troquinhos para os gastos de final de semana.
Às vezes freqüentávamos a Igreja da Glória, na parte alta do bairro, próximo ao Liceu Siqueira Campos.
Pizza, quando comíamos era um pedaço só na padaria da esquina da Independência com o Largo do Cambuci, depois de assistir uma matinê no cine Riviera e descer a pé a Lins de Vasconcelos.
De quando em vez meu tio Oswaldo colocava algumas almofadas na carroceria do caminhão e íamos passar o domingo no sítio de meu tio avô Angelin, no alto da Cantareira. Era uma viagem sem fim, só mato e muito ar puro.
Quando não íamos visitar minha tia Clotilde no Parque Bristol, que era vizinho do atual Parque zoológico de São Paulo. Quanta tranqüilidade e sossego. Nada de maldade e somente brincadeiras sadias com os primos e amiguinhos.
Não existia a discriminação de classes sociais e todos se sentiam iguais diante de todos.
A garagem da CMTC na rua Stefano vivia repleta de ônibus antigos importados e vazando óleo pelas ruas.
As Lojas Mesbla na avenida do Estado, a Jonshon, chicletes Adams, fábricas da Avenida do Estado.
Lojas Alhambra, Casas Weigant, o velho fotografo japonês que era o único do bairro, fotografava batizado, primeira comunhão, casamentos, eventos, etc. só dava ele.

Meu tio Carlos tinha uma oficina mecânica na rua Barão de Jaguara e o meu tio Emilio tinha um açougue na rua Luiz Gama. A família estava sempre unida e por perto. Hoje todos desagregados e estranhos.
Como mudaram as coisas em quase 40 anos. Que pena. Que saudades dos velhos e queridos tempos, que não voltam jamais.