Estávamos entre os meses de outubro e novembro de 1994.
Naquela época, em que eu ainda não conhecia computadores e net, tinha o costume de devorar o Estadão de domingo.
Numa manhã encontro uma página inteira (daquelas que ficam bem no meio do jornal) em que o Bradesco fazia um Megaleilão de imóveis. Havia imóveis para serem leiloados do Brasil inteiro.
Apenas por curiosidade, procurei saber se havia algum imóvel na minha região, e acabei encontrando um no mesmo bairro onde morava. Tratava-se de uma casa com três dormitórios (um com suíte) e mais um terreno de trezentos e sessenta metros quadrados anexo, e o valor inicial para lance era de quatro mil reais.
Pelo preço achei que não poderia ser grande coisa, mas por via das dúvidas, no dia seguinte, fui até o local dar uma olhada na casa. Quando lá cheguei já havia uma grande faixa que informava sobre o leilão. A casa era surpreendentemente boa, já estava toda rebocada com massa fina, portas e janelas em estilo colonial, toda murada, e o melhor de tudo, ficava a duas quadras da praia.
Procurei me informar com os vizinhos e descobri que estava invadida. Retornei diversas vezes no local e nunca encontrei ninguém, achei que o invasor tinha desistido da idéia e se mandado.
Para encurtar a conversa resolvi que iria ao leilão. Imaginem um cara que nunca esteve num leilão, a não ser aqueles dos parquinhos de diversão, com apenas cinco mil reais no banco, querendo comprar uma casa com três dormitórios e mais um terreno de lambuja. Nem o maior dos otimistas acreditaria. Na verdade, o que eu queria mesmo era dar uma chegada em Sampa e também não custava nada saber como seria o tal leilão. Eu tinha certeza de que quando lá chegasse ia encontrar várias pessoas de Itanhaém interessados no imóvel e que eu jamais poderia competir com elas.
O endereço era nos Jardins. Subi no ônibus e aconteceu uma grande coincidência. Na subida da Brigadeiro senta-se do meu lado nada mais nada menos do que Leônidas da Silva. Ao sentar-se ele pediu licença e me cumprimentou, eu o reconheci, perguntei se era ele mesmo, e ele alegremente confirmou e batemos um papo até eu descer do ônibus.
Logo que entrei na sala do leilão notei que a coisa não era mesmo para mim. Era uma grande sala com tapete de cinco centímetros de espessura, ar condicionado, água gelada e cafezinho servido por moças lindas e esculturais, todas uniformizadas. Mesmo assim teimei em ficar, dei uma olhada geral e não vi ninguém de Itanhaém.
Depois de meia hora, muitos slides e grandes negócios fechados, aparece na tela a tal casa de Itanhaém e o leiloeiro abre a contagem para a venda com o valor de quatro mil reais. De cara um sujeito diz em voz alta: – Por quatro mil é minha. Levantei a mão e disse: quatro e meio. Imediatamente o mesmo sujeito diz que por cinco mil era dele. Pensei um pouco, levantei a mão e disse cinco mil. Novamente o mesmo cara deu um tempo e subiu para cinco mil e quinhentos. Pensei comigo: minha chance acabou, mas por via das dúvidas, e pela pouca diferença, subi o lance para seis mil. O cara novamente subiu para seis mil e meio, e aí ficou provado que a briga era somente entre nos dois. Imediatamente pensei: vou ver até quanto ela chega, e subi o lance para sete mil.
Nessas alturas eu já tinha me conformado em vender meu carro para ficar com a tal casa, mas estabeleci o teto de oito mil para parar. Enquanto eu pensava, o cara subiu para sete mil e meio. Esperei o leiloeiro abrir a contagem e ofereci oito mil. A essa altura, eu já torcia para o cara oferecer oito e meio para poder ir embora, e eis que o leiloeiro abre contagem e rapidamente diz: – O valor é oito mil, dou-lhe uma, dou-lhe duas e dou-lhe três, a casa é do cavalheiro lá atrás, apontando para mim. A casa e o terreno eram meus.
Já de cara deixei um cheque de quatrocentos reais ali mesmo como comissão do leiloeiro.
Saí na rua e telefonei para minha mulher informando que havia comprado a casa. Subi num trolebus que ia para o centro, mas quando chegou na Paulista o trânsito parou, desci e fui a pé até o centro.
Na volta para casa dei uma chegada na nova casa, e quando lá cheguei deparei com o chamado invasor. Cheguei como se estivesse procurando alguém nas redondezas, fui conversando com o sujeito e levantando informações. Para encurtar a conversa, ele não era invasor, e sim um pobre coitado alcoólatra que usava o local apenas para dormir.
Fui entrando na casa e descobri que ele tinha todas as chaves da mesma, mais tarde descobri que pertenciam ao tal cara que competiu comigo lá no leilão. Ele havia gasto dinheiro na casa e se dizia dono dela, mas na verdade não passava de um tremendo 171 que havia deixado o bebum dormir na casa e em troca ele a olhava.
No final dei cinquenta reais para o tal invasor ir embora, peguei as chaves e deixei outra pessoa tomando conta da casa. Tive que vender meu carro para cobrir a dívida, mas em compensação somente o terreno do lado valia quinze mil reais. Na verdade nem vendi o carro. Como era um Gol muito novo passei para minha filha, fiquei com um Fiesta dela e peguei a diferença em dinheiro.
Hoje, somente a casa está avaliada na faixa de cem mil reais.
Obs.: Quem ler esta estória poderá pensar que eu sou um cara de muita sorte, mas se pensar um pouquinho mais vai descobrir que não sou eu que sou sortudo, e sim o cara que competiu comigo é que era um tremendo de um azarado. Calculem se eu não tivesse a idéia de ter ido até São Paulo! Ele teria comprado tudo por quatro mil reais.
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