Os alto-falantes berram clássicas marchinhas de antigos carnavais, músicas de sucesso e sons de estática… De repente, a música para e um grande "clic" é ouvido em todo o estádio do Pacaembu. Silêncio! Expectativa! Zumbido desagradável de microfonia! A tensão aumenta! Os torcedores silenciam, interrompem o que estavam falando ou fazendo. Ouvidos atentos! Em seguida a voz do speaker:
– O posto Esso de Francisco Zambrone informa a escalação das duas equipes…
Durante quase duas décadas, praticamente desde a inauguração do estádio, essa voz metalizada pelas cornetas instaladas na concha acústica dava início às práticas ritualísticas que eram desenvolvidas, religiosamente (claro!), nas tardes dos domingos, fizesse sol, fizesse chuva.
E continuava:
– O Sport Club Corinthians Paulista vai jogar com Bino, Domingos da Guia e Belacosa… O São Paulo Futebol Clube vai jogar com Gijo, Savério e Renganeschi…
Ninguém, que eu saiba ou me lembre, jamais fez a pergunta fatal: "Onde, diabos, fica esse posto Esso? E quem é Francisco Zambrone?".
Hoje, passados 50 anos ou mais, também não vou perguntar, "tô nem aí", embora aqueles sons tenham sido arquivados em meus arquivos “neuronais” para sempre. Vez ou outra puxo uma pasta desse arquivo, passo um espanador nos "papéis" pra tirar a poeira e recordo aquelas tardes dos sorvetes de palito, do amendoim salgadinho em cones de papel e das balas Paulistinha: "O que é que começa com 'G' e termina com 'A’?”. Garcia, o imperador da moda! R. Direita, nº tal…
Quando ouvíamos o início desse "reclame", já ficávamos preparados: “O que é que começa com 'G' e termina com 'A'?”. Cerca de 50, 60 mil torcedores respondiam com o que viesse à cabeça: ”Gravata!”. “Garrafa!”. “Girafa!”.
Alguns torcedores gritavam coisas mais pesadas, mas imediatamente eram admoestados por algum alguém que se sentisse ofendido:
– Moço, não fala essas coisas… Não “tá vêno qui” tem criança aqui?
– Eu paguei “prá entra”! Eu “falu o que eu quisé”!
– Ah, é? “Intão eu vô chama” o guarda, quero vê “ocê falá prá eli!”. Ô seu guarda, olha esse "liga" aqui falando palavrão perto de criança…
Imediatamente vinha o "seu guarda" com seu fardamento de flanela azul-marinho, quepe, espadim no cinto de guarnição, revolver 38 invariavelmente apresentando marcas de ferrugem no coldre e um cacetete de madeira – uma verdadeira borduna! – na mão, tudo isso debaixo de um sol de 38° à sombra, babando, 'feliz' da vida:
– Cidadão, me acompanhe.
– “Qui foi qui” eu fiz, seu guarda?
– Está falando palavrão perto de criança… Não pode.
– Mas eu não falei nada, seu guarda! Aquele "ligação" está ”inventâno”…
– “Qué sabe” duma coisa? Você tem cara de quem fala palavrão perto de criança, mesmo, e eu não gosto de quem dá “mau exempru”… Vou “ti levá prá escuta” o jogo pelo rádio…
– Tem dó, seu guarda, eu vim da Penha pra ver esse jogo… Pelo amor de Deus, não “mi” leva, eu fico “quéto”…
– Tá bom, mas muda de lugar… Vai ver o jogo em pé lá na concha…
– Ô, seu guarda, lá é ruim, não “si enxerga” nada…
– “Oi”… – batendo ameaçadoramente com o cassetete na palma da mão.
– Tá bom, seu guarda, tava “brincano”… “Tô ino”!
– “Si” eu “ti vê puraquí traveis”, o produto do Amazonas vai “cantá” nas suas costa… Vai logo! Não fica enrolando…
O futebol e seus sons através das ondas do rádio e de vozes que silenciaram para sempre: Rebello Jr., o Homem do Gol Inconfundível, deu velocidade e vibração às transmissões esportivas:
– Gota, ciática, pressão alta? Lave seus rins com Urodonal.
Fazia seu merchandising no meio das transmissões.
Geraldo José de Almeida, voz de ouro, exuberante:
– Cerveja Anchieta, a melhor cerveja preta!
Ou dizia:
– Atilio Riccó, Gazômetro, três, zero, meia, um só!
Sons e vozes que ficaram retidos em nossas memórias…
“Loção Brilhante, lálálálá – não é tintura, lálálálá – loção Brilhante é restaurador – devolve aos cabelos a primitiva cor!”.
“Dor de cabeça? Melhoral, é melhor e não faz mal".
“Maria, sai da lata. Aqui estou, senhor paladar exigente… Tosse, bronquite, rouquidão? Xarope São João!…”.
“Grindélia de Oliveira Junior… (fosse lá o que fosse a tal de grindélia) Sob os auspícios de Abacateirol, a Tupi de São Paulo apresenta Festa na Roça…”.
E a sirene da Rádio Gazeta, ao meio dia, tão pontual quanto o relógio do mosteiro de São Bento…
Os sons de nossa cidade que continuam percorrendo o espaço à velocidade da luz: a voz de Manoel de Nóbrega e seu "Boa noite para você"; Cid Franco e suas "Entrevistas Humanas" na Radio Cultura; os sininhos da música que identificava a Rádio Record; a voz inconfundível de Coripheu de Azevedo Marques e seu fiel escudeiro Alfredo Nagib; O Crime Não Compensa…; a voz do gênio Almirante e seu "Incrível, Fantástico, Extraordinário!; "Repto aos Enciclopédicos" da Rádio Cultura (audiência incrível para um programa de auditório apresentado por catedráticos da USP)!
Sons, vozes, silêncios de nossa cidade, distintos, nenhum ponto de comparação com os barulhos do século XXI.
Você… Sente em sua poltrona preferida, aconchegue-se – não durma! -, puxe por sua memória. Que sons, que vozes da cidade lhe acodem? O “blém, blém” dos bondes abertos? O klaxon dos carros? O grito de gol no Pacaembu, ouvido na Barra Funda? O batuque dos cordões de carnaval?
Quais sons? Quais sons? Quais sons?
A campainha da escola, estridente, convocando as crianças para formar as filas para entrar nas classes?
Quais sons? Hein?
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