Em 1982, portanto no século passado, realizei um dos maiores sonhos de minha vida: conhecer a Europa. Fui, com minha esposa, pra festejar 25 anos de casado, bodas de prata. A emoção indescritível foi, pra nós, uma grata ocorrência à custa de economias e renúncias outras. Hoje em dia seria enfadonho ler qualquer texto sobre isso, pois viagens pra qualquer parte do mundo se tornaram tão banais. Mas certos detalhes alimentam, a mim e a minha esposa, as recordações que, vez ou outra, as fotos da época nos trazem. Um deles nos veio a propósito de uma notícia recente em que conhecido apresentador de televisão foi assaltado e teve roubado seu Rolex. Feita a queixa na delegacia, em tempo recorde, a polícia já tem a identidade do assaltante e já saiu em sua busca e resgatar a jóia.
Nessa viagem aproveitei pra satisfazer um desejo muito antigo, comprar um relógio Rolex, de aço, em Colonia, na Alemanha, Loja Mappin, atrás da Catedral. Paguei por ele 900 dólares. De volta pra casa, alertado pela esposa (que boca, Deus me livre…), sempre tive receio de usar o relógio. Era vendedor na época, e vivia mais dentro do carro do que em casa. Em contrapartida (essa é velha), se eu compro um relógio é pra guardar bem escondidinho na cômoda ou num cofre e diariamente sacudi-lo pra ele continuar trabalhando (era automático), ou usá-lo? Optei por essa última. Top-Top. Em 11 de dezembro de 1992, com o dito cujo no pulso, estava com minha filha no carro, debaixo de um tremendo temporal de verão, na Rua Cardeal Arcoverde, em frente à igreja do Sagrado Coração de Jesus, com o trânsito paradérrimo, desde a Dr. Arnaldo até o Largo da Batata. Quando a chuva amainou, um indivíduo mal encarado passou em frente ao meu carro e fixou os olhos no que eu pensei serem as pernas de minha filha, uma jovem de 23 anos, de vestidinho curto. Alertei-a pra que cobrisse melhor as pernas, fechei os vidros e travei as portas. O trânsito continuava parado, passaram-se 5 minutos e apareceu um garoto, que poderia ter, no máximo, 14 ou 15 anos, tendo na mão um revólver maior do que seu braço, batendo no vidro pra que eu abrisse. Minha filha começou a gritar pra que eu abrisse o vidro, já que eu não tinha muita vontade de atender o meliante, na esperança de que o trânsito andasse. Abri um pouco o vidro e perguntei: “que você quer, o carro? O trânsito tá parado e…”. “Não quero o carro, quero o seu relógio” – aos berros minha filha me convenceu a ceder (se estivesse sozinho, provavelmente não estaria redigindo esse texto, hoje). E lá se foi um sonho rico de um caixeiro viajante nas mãos de um pirralho cheirando, ainda, a leite Ninho (ou maconha). Tudo isso assistido pelos motoristas de trás, da frente e do segurança de uma escola localizada na esquina da Henrique Schaumann com a Cardeal.
Dei queixa no 14ª Distrito Policial de Pinheiros, tenho a cópia guardada comigo, e procurei também o representante da Rolex, na Av. Paulista, com o número do relógio pra que, na eventual possibilidade de alguém procurá-lo, eles me procurassem. Tudo devidamente coberto. Doce ilusão. Só faltou eu ser apresentador de TV… Até hoje, 15 anos depois, nada.
Não estou me queixando, absolutamente, com tantas tragédias, perdas de vidas jovens, traficantes tornando-se parceiros de autoridades afim de não empanarem os recentes jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, isso sim é que é tragédia, infelizmente, irremediável. Não posso chorar a perda de um relógio se, agora, com apenas 30 ou 40 reais compro em qualquer banquinha, em qualquer esquina, um quartzo que funciona muito bem e não é cobiçado por ninguém.
e-mail do autor: [email protected]