Só São Jorge pra salvar

John é um amigo meu inglês. Chegou ao Brasil em 1985 para passear. Acabou conhecendo uma moça brasileira e o final vocês podem imaginar qual foi: casou-se.
Adotou o Brasil como seu país e São Paulo como sua cidade.
John, desde que aqui chegou, sempre teve o interesse de logo se aclimatar. Queria que queria se parecer com os nativos, pelo menos no jeito e nos costumes, já que a sua alva pele, seu loiro cabelo e seus olhos azuis, nunca negariam as suas origens gringas, por mais que ele quisesse ser um tupiniquim.
E já que assim teria que ser, resolveu criar alguns hábitos que, pensava, o ajudariam a enganar a platéia, fazendo com que achassem que ele realmente era um autêntico filho da terra.
Um desses hábitos foi o de falar gírias. Tentou e conseguiu assimilar o maior número de gírias possíveis no mais curto espaço de tempo, mesmo sem saber ao certo o que significavam e como aplicá-las. Por exemplo: usava "cara" para se dirigir a qualquer pessoa, mesmo às senhoras da melhor idade (terminologia politicamente correta). Um dia, foi cumprimentar a mãe de um amigo nosso:
– E ai, cara, tudo bem?
Soou estranho à bessa, ou melhor, segundo ele, estranho paca.
Detalhe: D.Dulce, mãe desse amigo, tinha oitenta e oito anos na ocasião.
E pouco adiantou lhe explicar que a maneira utilizada não era conveniente para a circunstância. Ele refutou os argumentos dizendo que aquela forma mostrava uma certa empatia, uma intimidade, traços típicos de brasilidade, pois segundo ele, só nessa terra é que as pessoas são assim, digamos, dadas e simpáticas.
Outro hábito assimilado foi o de se vestir igual aos daqui. Então era um tal de andar de bermudas e chinelão pra baixo e pra cima. Não os tirava nem que chovesse torrencialmente, afinal, na cabeça dele, esse era o "Brazilian way of wear". Pra ele, brasileiro que é brasileiro tem que se vestir como se estivesse na praia.
E levou isso tão a sério que vou aqui apenas citar duas ocasiões que o vi nesses trajes: no velório da própria D.Dulce (que Deus a tenha) – ainda bem que ele, dessa vez, não teve que cumprimentá-la – e a outra na missa de sétimo dia da querida mãe do nosso amigo.
Mas isso a parte, a gente até que achou louvável o esforço do John para se tornar um brasileiro na acepção da palavra. E como bom inglês, não poderia deixar de gostar de nosso maior esporte, que por sinal foi por eles criado: o futebol. E tinha que escolher um time para torcer.
Lógico que tentamos mostrar a ele todas as opções clubísticas descentes possíveis e das alternativas a que melhor se apresentava, sem dúvida, era a opção pelo São Paulo Futebol Clube. O time que entre os grandes é o primeiro. Mas qual, tinha que fazer a opção errada. Foi torcer por aquela agremiação do Parque São Jorge: o Corinthians.
E nada adiantou falar que era um time de pernas de pau (outra gíria, rapidamente por ele assimilada). Que o clube nem estádio tinha. Que o segundo uniforme do time mais parece camisa de presidiário. Que a torcida é constituída só por maloqueiro.
Taí, esse último argumento inclusive acabou sendo usado a favor. Como John queria ser um autêntico brazuca, nada melhor que torcer pelo time do povão, da massa. Na cabeça dele, assim o fazendo, estaria próximo dos autênticos brasileiros. “Um time com a cara do Brasil” – hoje entendo a expressão que meu amigo John empregou, deve ser pelo nível de corrupção.
Como se isso não bastasse, ainda somava a favor da opção do nosso grande amigo britânico o fato de o nome do clube, Corinthians, ter sido tirado de uma agremiação inglesa.
Bem, não teve jeito, John virou um verdadeiro torcedor do timão (?). E pra ficar mais autêntico ainda, só faltava se filiar aos "Gaviões da Fiel". Disse faltava, pois há três anos ele o fez.
E é daqueles torcedores fanáticos. Aliás, pra torcer pra esse time só sendo fanático mesmo, fanático não, doente.
John não perde nenhuma partida, mesmo chovendo torrencialmente, ou melhor, chovendo pra caramba (da lista de gírias dele).
Só que de uns tempos pra cá ele anda assim, digamos, cabisbaixo, meio, melhor, muito, de baixo astral. E não pensem que é por conta da absolvição do Renan, ou da prorrogação da CPMF, ou do caos do tráfego aéreo. Pra essas coisas ele até tem suportado o estresse.
A razão maior, digo, única, de sua deprê é a situação calamitosa em que deixaram o seu clube do coração. Por sinal, haja coração!
John anda inclusive tomando Lexotan, pelo que eu soube contado pela sua esposa. Tem tido calafrios e pesadelos só de pensar na possibilidade de extinção do seu time.
E no fundo tem sentido todo esse estado de coisas e essa sua grande revolta. Não se conforma em ver nos jornais as suspeitas de falcatruas no seu clube, orquestradas por um certo senhor russo, que se esconde sabe aonde? Exatamente no seu país de origem: na Inglaterra.
John inclusive comentou comigo que conhece algumas pessoas em seu país que poderiam lhe fazer uns "servicinhos" (assimilou mesmo o jeitinho brasileiro) em relação a esse senhor. Não quis me dar maiores detalhes, mas eu logo deduzi que boa coisa não devia ser e tentei dissuadi-lo da idéia, para que ele não venha a ter maiores complicações com a polícia, a Interpol.
Diante dessa sua perversa disposição, sugeri a ele, ao invés, que apelasse para as forças divinas. Sendo seu time uma agremiação popular, das massas, e o padroeiro do mesmo, São Jorge, disse a John que rogasse a esse santo. Ainda o lembrei que São Jorge, coincidentemente, é padroeiro do seu país. E quem sabe assim, com essa confluência de fatores e com toda reza, força e fé, esse santo guerreiro possa fazer com esses usurpadores e saqueadores do clube o mesmo que fez com o dragão, num golpe fatal com sua lança.
Salve Jorge no Parque São Jorge!!!!!!!!

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