Eram os começos da década de 70 do passado século. Aprendi com meu pai o amor à filatelia e à numismática. Mais do que timbres de postagem epistolar ou valores de troca, selos e moedas são retratos dos povos e das economias a que pertencem ou pertenceram. Quando ainda era a Praça da Polícia, no II Império, já às imediações da hoje Praça da República, ilustres advogados, egressos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, concentravam seus escritórios na região, e, aos átimos livres, trocavam entre si moedas e selos. <br><br>Já no século XX surge a feira de selos e moedas da Praça da República. Aos numismatas e filatelistas, logo se somaram os remanescentes do movimento "hippie" que, sem se "enquadrarem" no sistema, tampouco à nascente "nova era", comercializavam seus artesanatos. Não tardaram a surgir os indefectíveis vendedores de quitutes, buscando atender à população que circulava entre as barraquinhas aos domingos. Entre estes, uma me chamava muito à atenção. Tratava-se de uma linda senhora, que apregoava: "De milho bem, feito, acaçá. Quem vai comprar e se deliciar? Com o quitute da sinhá, mulher de bom pano, que entra e sai ano, faz o bom acaçá". Ela se denominava "sinhá" e chamava a todos de "filho", que reciprocavam chamando-a de "sinhá" ou "mãe". <br><br>Várias coisas me atraíam nesta singular pessoa. Primeiro, a altivez com que equilibrava o balaio à cabeça e caminhava ereta entre os presentes. Segundo, o pregão era cantado. Terceiro, a rima: acaçá/sinhá; comprar/deliciar; pano/ano. Terceiro, a vitualha apregoada: que era, afinal, o "acaçá"? Sabia, tão-somente, que meu avô, voraz apreciador de todos os derivados de milho, adorava o bendito acaçá. Quarto, as palavras que traíam uma origem antiquíssima do acepipe e da versificação do pregão: sinhá e deliciar. Por fim, que queria ela dizer com "mulher de bom pano? Mais de quatro decênios depois, estando em Salvador para um congresso, adquiri um interessante livro: “A Bahia já foi assim”, de Hildegardes Vianna, que lançou luz a muitas das questões: mulher de bom pano quer dizer que é uma pessoa simples, porém não uma mendicante. Sinhá ou mãe é como as rainhas “iorubás”, aqui ditas nagôs, são chamadas pelos súditos e adeptos do candomblé. <br><br>Indo recentemente à Praça da República soube de alguns zeladores dos prédios das imediações que se recordavam dela, que a "sinhá" era de fato descendente de rainhas nagôs, vinda adolescente a São Paulo. Hoje, pianista e violinista, luto para tentar recordar-me da melodia com que acompanhava o pregão. Acho que era uma escala pentatônica, tempo composto de 6/8 ou 9/12? Não sei.<br><br>Escrevo esta lembrança, antes que minha memória se desvaneça ainda mais. Lá no Orum – Paraíso – ela deve estar servindo acaçá para Oxalufã e meu avô. A mim, só resta contentar-me com canjica nas raras ocasiões em relaxo a minha dieta de manutenção de peso. Até mais, sinhá e vovô. Se encontrarem papai, mandem um beijo.<br><br><br>E-mail: [email protected]