Sinalização de horas

Nos anos 1950/60, São Paulo era uma cidade em que a população não sabia o que era poluição, principalmente a sonora, isso pelo fato de haver poucos prédios, o que estendia o som de qualquer sirene que tocava para bem longe.

Até mesmo no centro da cidade a gente ouvia no Anhangabaú o som do relógio do Mosteiro de São Bento, que de hora em hora dava as batidas daquele horário, sempre em hora cheia, ou seja: oito, nove ou dez horas. Também o carrilhão da Catedral da Sé era ouvido no Anhangabaú, às seis horas da tarde.

Todas as firmas tinham suas sirenes para a entrada ou saída dos funcionários. O som mais conhecido na zona sul era o da firma de chocolates Kopenhagen, com aquela sirene rouca inconfundível no bairro do Itaim que se ouvia pela manhã, na hora do almoço e à tarde, na hora da saída.

A sirene da Usina da Traição que fica dentro do Rio Pinheiros era ouvido pela manhã, dez minutos antes das sete, e em seguida na hora cheia. Depois na hora do almoço e às 16h, hora da saída. A usina trabalhava oito horas por dia, em três turnos; ela não podia parar, porque bombardeava as águas do Rio Tietê para a Represa Billings, devido à caída das águas, era ao contrário, e depois das 18h a sirene não era acionada.

Mas o som diferente acontecia pontualmente às 11h da manhã. Era explosões em número de dez, pouco mais ou menos, que vinham da zona oeste do Morro Grande, rodovia Anhanguera. Eram as dinamites que todos os dias explodiam na pedreira para se fabricar pedras britadas para a construção civil ou estatal. Com a pouca poluição sonora, a cidade toda ouvia, e nos municípios próximos (hoje a Grande São Paulo) os moradores também ouviam. Era comum pessoas enviarem cartas para o rádio perguntando o porquê daquelas explosões diárias e sempre e sempre no mesmo horário.

À noite, 21h, a batida do enorme relógio do alto do prédio do Colégio Eduardo Prado, Rua Jacurici, próximo à ponte Cidade Jardim, era ouvido no Brooklin, quatro quilômetros adiante, quando o silêncio era maior. Vivíamos numa outra cidade de São Paulo.

Os sons são chamativos às seis horas da manhã. O meu rádio-relógio em cima do criado-mudo com som regulado ao mínimo me desperta com um miado de gato, mas, meia hora antes, sou despertado por um rinchado de um portão arrastado, o que fez que eu descesse até a sala, pegasse lápis e papel, o que gerou um poema.

Meu vizinho.
Todo dia o barulho do portão
da casa do meu vizinho,
era o despertar do meu sono.
Aquilo já era uma bela rotina,
que meu ouvido gostava de ouvir,
Certo dia, ele (o ouvido),
estranhou…
Não ouviu o barulho do portão.
Nem o galo que sempre cantava,
naquele dia, não se manifestou.
O silêncio é sempre uma coisa estranha,
que arrepia e chama muito atenção.
Pela falta do rinchar de um portão,
o que deveria arruinar os tímpanos,
apenas mudou uma rotina.

Hoje temos outro tipo de sons, não são pela noite ou madrugada, mas em meio a muita poluição sonora em pleno calor do dia.

Uma Brasília amarela, ano 1974, com alto-falante em cima, com altos decibéis, tem um homem gritando a todos os pulmões. “Pamonha, pamonha, pamonha de Piracicaba”. Outro caminhão vagando pelas ruas do bairro, também com um enorme bocal de alto-falante tipo, RCA Victor, toca uma música que foi o hino das vitórias de Ayrton Sena na Fórmula 1, e que hoje não passa do hino do caminhão de gás. Ele bem que podia tocar num som moderado uma adaptação da música gravada por Inezita Barroso nos anos 1950. “Caminhão de gás, caminhão de gás, quanta raiva você me trás”…

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