Lá pelos anos 50 morávamos em um cortiço (hoje é comunidade). Famílias de trabalhadores tentando dar aos seus familiares melhores dias. A meninada sempre preocupada com a escola e mais ainda com as brincadeiras… As turminhas, os amigos prediletos e aqueles que, não sei o motivo, eram evitados, e/ou eles nos evitavam… Meu desafeto era o Gilberto, neto dos donos do cortiço (ops, comunidade). Quando brigávamos por qualquer motivo, a pedrada era seu ataque preferido. Juntava algum caco, puxava sua canhotinha, junto ao seu olho, mirava e disparava… O objeto descrevia curvas e por mais que eu tentasse me livrar… me acertava…
Sempre aparentemente desligado, mas quando se propunha a fazer uma pipa, papagaio, quadrado, raia… a perfeição era completa…. das varetas feitas com taquara, o papel de seda ou manteiga, tinham o corte e a estrutura perfeitos. Mas o que mais chamava a atenção eram as emendas, todas simetricamente iguais (redundante, não é?), bem diferentes daquelas que eu me propunha a fazer, grosseiras e tortas. O brinquedo dele sempre era o que ia mais alto (a medida era em carretéis de linha 24), disputando quem era o melhor; diferente de hoje, tempo do cerol, onde destruir o adversário é o objetivo… (loa a violência, não é?)
Quando chegavam as festas juninas, época de balões, o tal Gilberto causava inveja. Os modelos de balões eram: pião, charuto, quadrado, mexerica, estrela e com suas emendas perfeitas e as estruturas impecáveis, e sempre subiam. Passaram-se alguns anos, mudamos, crescemos e os contatos diminuindo, e praticamente desapareceram.
Começo dos anos 60 e eu trabalhava na Sabrico-Depto Agrícola, na Rua do Grito-Vila Carioca, concessionária dos tratores alemães "Hanomag", no escritório da oficina, onde, além dos reparos, algumas peças eram fabricadas. Havia alguns tornos mecânicos, fresas, furadeiras, etc.
Um dia, apareceu o Gilberto candidatando-se a função de torneiro-mecânico, coisa que eu desconhecia, e o encaminhei ao encarregado da oficina, o italiano Sérgio, para teste e fui para minhas tarefas. O italiano deu a ele um desenho de uma peça simples e lhe pediu para que a fizesse, indicando o torno para seu uso e disponibilizando o material necessário. Passado o tempo que o encarregado julgou suficiente para a tarefa, voltou ao candidato perguntando se a peça já estava pronta… A resposta foi surpreendente:
– Não, eu ainda nem comecei, pois estava limpando o torno que estava muito sujo….
Foi aprovado…
E-mail: [email protected]