São Paulo tem inúmeros bairros famosos e cada um com as suas histórias e suas muitas lembranças. Não seria diferente com o bairro da Bela Vista, que tem inserido dentro de si uma das mais tradicionais comunidades que o Brasil conhece em prosa, verso e canção, o Bixiga.
Alfabeticamente, de Adoniran Barbosa à Zilda Cardoso, todos, famosos ou não, tem uma partícula de identidade com a nossa comunidade. E olha que tem muita gente famosa nesse meio.
Mas, não quero buscar pelos famosos da mídia e sim, os famosos do lugar. Aqueles que viveram o dia-a-dia (noite a noite), atravessaram décadas, testemunhas das transformações que o progresso imputou ao bairro e nas comunidades.
Um nome bastante conhecido no velho Bixiga foi o de Hassan Maita, mais conhecido como 'Tito', ou 'seu Tito', 'tio Tito', para mim.
Era um senhor de estatura mediana, descendente de sírios/libaneses (?), casado com dona Bernardeth e pai de quatro filhos. Amadinho (já falecido), Elizabeth, Sônia e Marcelo, que foram os que conheci. Sim, porque, o Marcelo veio ao mundo já depois de as coisas estarem um pouco mais 'calmas' na vida do casal e eu só posso sugerir que seu nascimento deu-se por 'acidente de percurso', daí a minha exclamação.
Tito foi um homem muito dinâmico no bairro. Muito bem-quisto e respeitado, dirigiu o Boca Juniors nos bons tempos do futebol de salão, na Rua Santo Antonio (onde também morava). Diversificou suas atividades com um restaurante, o 'Panela de Ferro', que depois passou para o mecenas da gastronomia italiana, Giovanni Bruno.
Tinha uma voz suave e segura e uma presença austera o que lhe conferia um ar de sábio (e o era), relacionando-se muito bem com os demais do bairro.
Sua presença era constante a qualquer manifestação festiva do bairro e quando não, era comum vê-lo na esquina da Santo Antonio com a Rua Delegado Everton, na padaria de seu Manoel, tomando um cafezinho e em roda de amigos, discutindo os mais variados assuntos (futebol, era o seu favorito). Economia, política, mulheres (oops!), rádio, televisão, enfim, de tudo o seu Tito era conhecedor. A mente do homem era de uma inteligência raríssima e dividia o seu saber com todos.
A tertúlia diária (sim, pois os amigos eram como uma família e também os da família estavam presentes) reunia os mais comuns daquela confraria. Amado, Belém, seu Benjamim, seu Armando (que comprou um dos primeiros Opalas 3800 na época), Ninho, às vezes meu pai, o velho Fernando e Jamil (irmão do Tito), além de outros que não me recordo de seus nomes.
Quando Maluf (sempre ele) dizimou o campo do Boca com a construção do 'minhocão' e o restaurante não era mais a sua praia, Tito adquiriu o terreno da velha 'maloca', na mesma Rua Santo Antonio e o transformou em estacionamento, batizando-o com o nome do filho caçula: 'Estacionamento Marcelo'.
Tito me chamava de 'soldado da rainha', alcunha que me aplicou seu irmão Jamil, por ser meu cabelo do tipo 'black power' e parecer com o famoso capacete dos guardas de Buckinghan, em menor escala, é claro, e teve por mim um carinho muito grande (e eu por ele), assim como a todos de sua família.
Quando me casei, disse-me para não fazer a 'baianada' de encher a mulher de filhos e ser um bom esposo e me passava às orientações de um mundo, agora diferente, dos homens de responsabilidade com uma família. Atendi a seus conselhos e tivemos só três filhos (as cesarianas de minha mulher não permitiram outros mais).
O tempo, senhor absoluto de todas as verdades, norteou os meus destinos e vim parar na Bahia, onde estou há quase quarenta anos, sem nunca, jamais ter voltado para São Paulo e, em uma de minhas narrativas, um outro morador do bairro, o amigo Clayton Domingues, corresponde-se comigo e me informa do falecimento de 'tio Tito', fato ocorrido a dez anos atrás e me surpreende ainda mais com a morte de seu filho Amadinho, a quatro anos passados.
Um misto de tristeza e lembranças envolveu-me na solidão da distância que me encontro e como num filme, as passagens de cena criaram-se como um cenário em minha memória.
Hoje, estou sabendo que dona Bernardeth está morando em outro bairro, que o estacionamento é admnistrado pela viúva do Amadinho e que o Marcelo é músico e se apresenta com artistas famosos, como Jair Rodrigues.
Coincidências do Bixiga. Adoniran e Elis, no Bar da Carmela, Agostinho dos Santos e Jhonny Mathias na padaria do seu Manoel, Wilson Miranda no bar do Benito, Antonio Marcos na casa do Tito, Roberto Carlos na casa da Nice (na 13 de Maio) e agora, o Marcelo com Jair Rodrigues, além de outros que por lá passaram.
O Bixiga foi e sempre será cultura, poesia e música e se algum autor ou compositor olhar nas entrelinhas do bairro, com certeza encontrará um motivo para um poema ou uma inspiração para uma canção, pois por lá sempre terá 'um grande Bixiguense'.
Nota: Dona Bernardeth, Soninha, Betinha e Marcelo, vocês nunca saíram de minhas lembranças e nem de minhas saudades. Clayton, obrigado amigo, onde quer que você esteja.
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