Seu Oscar, um professor à antiga

Na década de 1940/4, faço meu primário, sem repetir um ano sequer, no Grupo Escolar Romão Puigari, no Braz, na Avenida Rangel Pestana, onde está até hoje. Nessa época, utilizo o túnel existente entre a escola e o prédio do "R. Monteiro", tradicional loja de tecidos, pra atravessar a avenida. Acompanho religiosamente as aulas com o "Gibi", às 2as., 4as. e 6as. feiras, e com o "Globo Juvenil", às 3as. e 5as. feiras, edições que são preponderantes pra minha formação básica, além do simpático "O Monjolo e a Roda D'água".

Contamos como servente com um bom homem, que sempre ensaia um rigor na conduta do comportamento dos alunos no recreio, mas esbarra sempre na sua índole de bom coração. Só que ele assusta, é muito feio, feio o bastante pra garotada alcunhá-lo de "Jacaré". Nunca soube o nome dele.

O diretor, de saudosa memória, Orlando Simonetti, uma pessoa gentilíssima, bondosa e educada, que sabe como poucos lidar com crianças. Em contrapartida, seu subdiretor, e também professor, Oscar (não lembro o sobrenome), é uma fera, um verdadeiro feitor de fazenda, lidando com os alunos como se fossem egressos de uma penitenciária. Incute na garotada um pavor que é aceito não simplesmente pelo rigor na administração das aulas, mas também, e principalmente, por agressão física.

Dentre as professoras lembro de Dna. Guiomar, que carrega na pronúncia forte suspeita de ser interiorana (caipira), nos finais dos termos Brasil ou cantil fala "Brasiuls" ou "cantiuls". É uma farra ouvi-la.

Dentre os alunos, tem o Francisco Stoppa, o "Chiquestopa", meu amigo até sua morte, há 2 anos atrás, Moacyr, já falecido, irmão de quem seria, anos depois, meu cunhado, Oswaldo Espejo, que contraria tudo o que se diz de cunhados, uma ótima pessoa, Luiz, o "Cascão", filho do farmacêutico, com a farmácia na esquina da Rua do Lucas com a Benjamim de Oliveira, apelido merecido devido ao pavor que tem pela água, pescoço e orelhas carregadas de sujeira. Acho que o Mauricio de Souza se inspirou nele. Não quero ser tachado de mentiroso, mas acho que um dos colegas está o Rubens Ricúpero, nosso embaixador na ONU. Outro é o Toninho, filho do bicheiro da Rua Monsenhor Andrade, barulhento, briguento, farrista, gozador como ele só, mas de uma bondade extrema. É a maior vítima do prof. Oscar. Quando ele está escrevendo na lousa, de costas pros alunos, se ouve um barulho, vai direto a carteira do Toninho, agarra pelos cangotes, chacoalha, sacode, joga ele longe e depois pergunta… "Quem fez ou falou isso". Não usa régua para a palmatória, ele vai no tranco, mesmo.

Estudando meio período, outra parte do dia trabalho na gráfica do meu tio Vito. Um dia, carregando a faca da guilhotina nas costas pra ser amolada na Rua Américo Brasiliense (era nossa, depois foi-nos "roubada" pelos santamarensses, acho que o Lopomo teve participação nisso… rsss), passando debaixo de uma janela, ouço um som de violino. Olho pra ver quem toca e… dou de cara com o prof. Oscar.

Depois daquele dia, acho que pra amenizar um pouco sua carranca, com um tique nervoso que o obriga a puxar um pouco o canto da boca, principalmente quando está zangado (quase sempre…), resolve levar o instrumento na escola, promete e cumpre tocar uma doce melodia. Durante a execução, o Toninho não aguenta e se põe a rir dele. Prof. Oscar, baixinho, gordinho, extravasando seu tique como nunca, para, levanta o instrumento ameaçador, vai direto até a carteira do menino, que sai correndo da sala, da escola e só depois de alguns dias, com a presença dos pais, volta a assistir aulas.

Até o fim daquele ano, o professor Oscar continua com sua mesma filosofia, rigidez e bom ensino. O Toninho continua como sempre, fazendo algazarra e levando porradas. E nós também…

Estas são pequenas recordações dos tempos gostosos dos "grupoescolares".

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