Sesc – Fábrica da Pompéia

Freqüentei muitas vezes o Sesc da Pompéia. Já faz mais de duas décadas, quando eu ainda morava na Vila Sônia. Ficava maravilhada com aquela construção, com a beleza das formas, das possibilidades culturais que aconteciam – e acontecem – ali dentro.

Confesso que há anos não o visito. Pura falta de oportunidade, até porque tenho que selecionar o meu roteiro cultural e administrar o tempo a cada ano que visito a minha saudosa cidade. Para esse final de ano, a visita será prioridade. Vou visitar o Sesc, com muito orgulho e enorme prazer, apresentar aquele espaço fantástico ao meu filho, aprender muito, me encantar, saborear as lembranças que ficaram docemente gravadas.

Quando eu ia à Pompéia com o meu atual marido, sentíamos um imenso prazer ao conseguir enxergar um espaço de muita história e muito trabalho. Aliás, como não poderia deixar de ser, existiam – e acredito piamente que ainda existam – boas pizzarias por ali, com aquele inconfundível cheiro da lenha. Cheiro de forno a lenha me remete a uma vida extraordinária, familiar, amigável, cheia de afeto, mas um afeto duradouro, pleno e muito sincero.

Voltemos ao Sesc. De longe, é possível enxergar aquelas formas magníficas, as janelas desiguais e humanamente trabalhadas. Tudo projetado pela brilhantíssima arquiteta Lina Bo Bardi.

Nascida na capital italiana no início da Primeira Guerra Mundial, estudou Arquitetura na Universidade de Roma. Foi, lentamente, ganhando espaço, mas, nos anos 40, com a Segunda Grande Guerra, teve seu escritório bombardeado. As dificuldades só se fizeram aumentar. Ingressou no Partido Comunista Italiano, lutando na resistência ao Fascismo de Benito Mussolini. Para mim, foi inesquecível uma entrevista sua na Folha de São Paulo, ainda no final dos anos 80, em que afirmava: "para nós, da resistência ao Fascismo, cada minuto de vida era sinal de grande vitória".

Chegou ao Brasil em 1946, carregando inúmeros traumas de guerra, com o marido Pietro Maria Bardi. Passando a conhecer melhor o Brasil, encantou-se com a cultura popular, deixando que a mesma influenciasse diretamente a sua produção. O seu trabalho passou a agregar valores, promovendo um diálogo entre o Moderno e o Popular. Assim, na sua visão de arquitetura, passou a deixar um espaço inacabado que seria preenchido pelo uso popular cotidiano.

Ao conhecer a antiga Fábrica de Tambores na Pompéia, ou seja, o futuro Sesc, Lina encontrou uma construção de alvenaria e de uso pioneiro de concreto. Ao mesmo tempo, identificou um espaço que, durante os finais de semana, era freqüentado por famílias, com crianças e jovens brincando. A arquiteta, percebendo a espontaneidade e a funcionalidade do espaço, entendeu ser possível considerar o que já estava pronto. Chegou a afirmar: "Pensei: isso tudo deve continuar assim, com toda esta alegria".

Assim, na organização do seu projeto, resolveu dar liberdade aos trabalhadores da construção ao deixar claro que deveriam fazer as janelas como quisessem, de forma aleatória mesmo. E ficou lindo! De todo o trabalho magnífico na nossa arquiteta, o MASP, sem dúvida, merece o nosso aplauso entusiástico. Uma grande manifestação de amor por São Paulo. Mas o Sesc é democrático, dinâmico, aberto, com uma possibilidade imensa de grandes descobertas, de cursos que mexem com a curiosidade, sobretudo de jovens, com a sua biblioteca exemplar.

Saudades do Sesc da Pompéia, saudades de São Paulo, saudades de mim.

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