Que saudades do Itaim dos anos 50 e 60. Saudades da Rua do Porto, da Rua da Ponte, da Rua Pequena, da Rua Tapera, da Rua Bibi, da Rua Yayá (esta ainda conserva o nome), do leite de vaca tirado na hora em uma das várias chácaras do bairro, do Aristides de Castro, uma escola construída no início do Século 20 e que se manteve sempre imponente com suas escadarias externas de acesso às salas de aula localizadas na parte superior do prédio, até sua demolição em meados da década de 1950.
Que saudades do "Seo Fonseca", inspetor de alunos (na época ainda não se usava esse título). "Seo” Fonseca tinha as mãos tão grandes que só de imaginar o que seria receber um tapa dele os alunos arruaceiros já tremiam. Era um homem muito bom e cumpria rigorosamente as ordens da diretoria para manter a disciplina na escola. Era ele quem fazia badalar, com suas enormes mãos, o sino de bronze para chamar os alunos no início, fim das aulas e retorno do recreio. Mas, moleque é sempre moleque e, quando estávamos na rua, bem longe do alcance de suas grandes mãos, entoávamos um coro nada elogioso ao pobre homem.
No pátio da escola havia abacateiros, caquizeiros, jabuticabeiras e outras árvores. Brincava-se muito, mas também se aprendia bastante. Os professores eram bons e exigiam muito dos alunos. Quem não prestasse atenção à aula ou fizesse algazarra, levava puxões de orelha e reguada nas mãos (a famosa palmatória). Bons tempos aqueles, pois as mães aprovavam a disciplina da escola. Aliás, ao contrário do que ocorre hoje, quando um professor não pode sequer chamar a atenção de um aluno, ou ameaçá-lo de reprovação por falta de interesse nas aulas.
Antes da entrada na escola ou na saída, tomávamos sorvete na Sorveteria Elite ou comprávamos material escolar na Casa Paes, ambas bem em frente ao Aristides, na Rua Joaquim Floriano. Fora da escola ou nas férias, jogávamos futebol na rua, nadávamos nus no Córrego do Sapateiro, quando ainda não era poluído e, claro, escondidos dos pais. O point era uma pequena curva do rio nos fundos do depósito das Lojas Mappin, onde se encontra hoje o Supermercado Extra, na Juscelino, esquina com a João Cachoeira.
Outra "praia" frequentada pela garotada era uma lagoa chamada "Descoberta" – não sei a razão do nome – formada por águas da chuva e onde eram constantes os afogamentos de jovens em razão de sua profundidade e do lodo que se formava no fundo da lagoa. "Visitávamos”, sem sermos convidados, todas as chácaras da região à procura de frutas ou simplesmente aprontar brincadeiras. As vítimas eram o famoso terreno do Bicudo, na Rua Heloisa (hoje Av. Juscelino) e a Chácara do Português, na Rua Pequena (hoje Atílio Inocentti), ambas ladeando o Córrego do Sapateiro.
As festas juninas eram as mais esperadas. Fogueiras nas ruas, muito doce feito com milho, arroz doce, quentão e balões – não só soltá-los, mas também "caçá-los" em arriscadas corridas à noite aos bandos, armados com varas de bambu. Bons tempos quando a TV ainda engatinhava e os jogos de futebol eram acompanhados pelo rádio – Rádio Panamericana, com Pedro Luís e Bandeirantes, com Edson Leite, este o narrador dos jogos da seleção brasileira na Copa de 1958.
Década de 1960, os bailinhos nas casas dos amigos, os namoricos, os primeiros pileques. Bons tempos, acreditávamos ser o máximo "encher a cara" nesses bailinhos com "cuba libre" (rum + coca), "samba" (pinga+ coca), "hi-fi" (vodca com crush) ou, ainda, cerveja na Padaria Alaska e Bar do Atlântico (na Clodomiro Amazonas). Como éramos inocentes! Felizmente, as drogas ainda não haviam chegado ao nosso meio. Como diz a letra de uma música do Ataulfo Alves: "eu era feliz e não sabia!"
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