Larga na Reta dos Boxes, toma a Curva 1 a esquerda a toda e a toda também faz a Curva 2 para pegar o “retão” de quase 1km em direção a Curva 3, não sem antes, na placa dos 50m (só para os braços) frear forte, reduzir e fazer a 3 o mais rápido possível pegando a junção a toda… Forte entrada a esquerda na Ferradura, pegar a Subida do Lago e tentar voar na Reta Oposta, um mini “retão”, emendando na maravilhosa Curva do Sol em alta, reduzir um pouco para a Curva do Sargento, descer queimando para não ser um laranja e fazer a Curva do Laranja antes de reduzir fundo no Pinheirinho. Logo depois o Bico de Pato, fazer o mergulho enchendo o motor para a Subida dos Boxes, passar em frente às arquibancadas e em frente aos boxes, a toda, ver a placa de sinalização: 3:00:00. Cravado!
Esse era ele: Luisinho Pereira Bueno e seu Maverick Berta, história que um Expedito Marazzi, grande repórter da revista Quatro Rodas, nos narrava ainda com olhar de assombro, pois havia tentado também fazer o mesmo tempo, mas com o carro quase desintegrando no final do retão para fazer a 3, para ao terminar a volta, ver a placa da equipe apontar: 3:06:12, um pouco mais, um pouco menos. Como ele conseguia 3 cravado, se perguntava ?
Era um tempo em que grandes pilotos não reduziam para fazer a Curva 1 após a Reta dos Boxes, a gente ouvia o motor se enchendo, subindo de rotação, subindo, subindo e a curva sendo feita na mesma toada, não havia redução, isso faziam apenas alguns: Lusinho, Emerson, Reutmann, Stewart e muito poucos.
Lembro uma vez numa corrida de moto o grande Johnny Ceccoto fazer a Curva 1, com sua Yamaha TZ, podando outro piloto, pelo acostamento da direita, não sem antes, ter entrado a toda sem reduzir !
O antigo circuito de Interlagos com seu traçado favorecido pela topografia do terreno, tinha curvas a direita, a esquerda, em subida, em descida, reta longa, reta curta, cotovelos, curvas com visão total, pontos sem visão das tangencia, ou seja, era um circuito completo.
Foi o templo que revelou e consagrou muitos nomes de nosso automobilismo desde Christian "Bino" Heins até Ayrton Senna, e o grande Emerson.
Interlagos e seu micro clima, que nos cozinhava de dia e congelava de noite, nas longas vigílias das 24h onde tudo acontecia naquele lugar.
E as corridas de motos? Os grande pilotos paulistas Walter "Tucano" Barchi e sua técnica apurada de pilotagem, mesmo com chuva, fazia as curvas como se os pneus de sua moto estivessem colados ao asfalto e sempre no limite.
Denisio Casarini, técnico e veloz, agressivo, fazendo com Tucano uma das melhores duplas de equipe, protagonista da mais espetacular chegada de um piloto de moto durante as 200 milhas de Interlagos de 1973. Ao tentar ultrapassar Tucano na volta final, sua moto desgarra na entrada da Reta dos Boxes, ele cai e vem "capotando" por dezenas de metros, sendo que sua moto cruza primeiro a linha de chegada e ele depois! Essa cena memorável pode ser ainda vista no YouTube.
O veloz e forte piloto Zezo em dupla com aquele que na 125 poderia ter sido o "Angel Nieto" brasileiro, Ramon Macaya, vencendo em dupla as 500 Milhas de Interlagos de 1975 com sua Honda 550, preparada pelo lendário Manoel Gomes Gallardo o famoso Dom Manolo, espanhol de Barcelona, que foi o Colin Chapman de nosso motociclismo.
A história de Interlagos se confunde com o nascimento de tudo aquilo que hoje se chama automobilismo e motovelocidade, pena que os interesses econômicos tenham transformado o maravilhoso traçado, em um arremedo lento e sem emoções, que serve apenas para dar àqueles que lá nunca estiveram um pálido exemplo pela TV do que eram as corridas de Interlagos.
Fala-se hoje, em movimentos no sentido de restaurar ao Autódromo o velho circuito. Duvido! Porém, para nós, que lá estivemos várias vezes, desde os velhos tempos dos protótipos e carreteiras, sabemos que em cada trecho de suas antigas curvas, repousa o espírito da velocidade e da vitória.
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