Saudades da minha terra

A história é longa e tem seu início no final da 2a. Guerra Mundial, que felizmente terminou em 1945, deixando um saldo de mortos e brasileiros inválidos incontáveis.

A infância era cheia de improvisos, não se falava em trabalho proibido para menor e não havia qualquer prejuízo nas atividades escolares se o menor ajudasse no orçamento familiar.

Catava osso, vidro, lata velha, ferro, alumínio e outros que vendíamos no ferro velho.

Engraxava sapatos no Ponto Fábrica, é isso mesmo, lá no Sacomã, Ipiranga, e o que é pior, naquele tempo já davam o golpe. Um dia um cidadão engraxou seu sapato e, na hora de pagar, não tinha dinheiro, imaginem a frustração deste garoto.

O número de imigrantes italianos e espanhois era muito grande, a maioria sem qualquer instrução (analfabetos) numa terra estranha e quase sempre com família numerosa.

Mas, não lhes faltava coragem para trabalhar e fazer do pequeno ganho uma fortuna, que se traduzia em dar sustento aos filhos e ensiná-los a conseguir melhores meios para sobrevivência.

Alô família Bruno… É, eu trabalhei na Alfaiataria Bruno, na Rua Silva Bueno, tinha 11 anos, levava serviço para a calceira, fazia entregas e alguns serviços para o aprendizado… o salário "era aprender um oficio".

Depois de pouco mais de um ano já era contínuo no escritório de advocacia na Rua Sete de Abril, é, eu já era diplomado, havia terminado o 4º ano primário e o Dr. Souza Netto prometeu-me pagar minha escola, e com isso consegui melhorar meus conhecimentos, já sabia até escrever a máquina.

Perdi minha mãe aos 13, aí levou a breca… Tudo ficou desestruturado, mas "vamos à luta", esse era o lema e os ensinamentos que ela nos transmitiu.

Eu era um carinha metido e não é que me convidaram para trabalhar num escritório de contabilidade?, que foi a maior fria que eu entrei, pensei que ganharia um salário melhor e melhoraria minha vidinha.

Foi uma piada, logo me retirei e fui trabalhar com registro em carteira, que grande progresso.

Aí veio alistamento militar e eu me alistei na Aeronáutica… Naquele tempo exigiam altura, bom físico, e não sei como me aceitaram com 1,62 de altura pesando 48 kg.

Os tropeços me levaram a estudar e tentar fazer carreira, soldado de 1a. classe, cabo e preparação para sargento… Terminou tudo muito cedo, mas foi um grande aprendizado.

Depois não interessa mais, porque história de adulto não é história, é relatório de obrigações.

Mas tudo o que relatei tem apenas uma finalidade: demonstrar que os tempos eram difíceis, mas que com luta nós conseguimos vencer. Família criada, vários netos, uma bisneta, consegui estudar advocacia, que era meu sonho de criança, e hoje, aos 72 anos, agradeço aos meus pais a vida, e a meu bairro, Ipiranga, e minha cidade, São Paulo, as oportunidades que me foram oferecidas.

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