Meu nome é Daniel, tenho 69 anos, nasci na Rua Freire da Silva, Cambuci São Paulo. Dizia minha mãe que nasci em cima da enchente, mas não sei nadar. Ainda pequeno morei na Rua José Bento. Meus pais trabalhavam no Moinho Santista, minha mãe tecelã e meu pai revisor de peças até a firma ser transferida para o bairro da Quarta Parada. Minha mãe fez acordo e meu pai acompanhou a empresa até sua aposentadoria.<br><br>Meus tios moravam no interior do antigo hospital militar, não tinham filhos e meu tio trabalhava no Nadir Figueiredo na Rua da Independência. Mudamos para a Vila Monumento, Ipiranga, na Rua Engenheiro Prudente e depois para a Dr. José Maria Azevedo, 146. Esta última era uma casa tipo cortiço com sete famílias. E seis ocupavam o mesmo banheiro, com chuveiro de água fria.<br><br>Lá comecei a estudar o primário no Grupo Escolar Dr. Murtinho Nobre, hoje E.E, até o terceiro ano e o quarto no Oscar Thompsom no Cambuci.<br>Após o primário, com dez anos, para ajudar em casa, trabalhava como ajudante de caminhão, balconista de bar, ajudante de marceneiro, e ajudante de ourives. <br><br>Nessa época, minha paixão era empurrar pneu, aro de bicicleta, esconde-esconde, ver os carros encalharem na lama das ruas, brincar na escadaria do Colégio Rainha dos Apóstolos e jogar meu futebol nos campos do Vila Monumento do E.C. Corinthians da mesma vila. Aos domingos, o passeio preferido era o Museu do Ipiranga e nas festas juninas corríamos atrás dos balões, de dia e a noite.<br><br>Alguns nomes da Vila: Manelão, Zé Ferreira, Bixiga que comia vidro, Nenê, Chicão Alemão, Mário Preto, Elias, Landão, a venda do Antonio português, o deposito de carvão da família japonesa, o Claudionor, e tantos outros. Minha avó cuidava da casa e fazia o almoço que eu levava para os meus pais até as 11 horas.<br><br>No final da rua existia um atalho (na barroca) para a Rua Oliveira Lima que desemboca na Rua da Independência onde eles trabalhavam.<br>Com treze anos e meio comecei cursar o ensino profissionalizante no SENAI do Cambuci onde me formei em Artes Gráficas, impressor. Já formado, trabalhei na Empresa Gráfica Revista dos Tribunais na Rua Conde de Sarzedas e depois na Gráfica São José na Rua Galvão Bueno e viajava de bonde todos os dias. <br><br>Joguei futebol pelo C.A Ypiranga no infantil, juvenil e profissional em 1958. Em 1959 servi o Exército na Cia do Quartel General da 2ª Região Militar, na Abílio Soares, Ibirapuera. A Cia tinha um time só de profissionais da época e era base para a formação da Seleção do Exército, inclusive com o Rei Pelé que servia em Santos. Campeão do Torneio das Forças Armadas (Brasil) e Sul Americana (com Argentina e Paraguai). Eu era zagueiro central.<br><br>Em 1960 me transferi para o Vale do Paraíba para jogar futebol e trabalhar, ali fiquei até 2009. Hoje estou morando provisoriamente em Caraguatatuba. Quando escrevia estas mal traçadas linhas, um filme passava na minha cabeça e que saudade me dá dos vinte anos vividos naqueles dois bairros, Cambuci e Ipiranga. A saudade do pouco tempo ainda está presente em minha memória e, se pudesse, gostaria de viver novamente e com mais intensidade cada minuto daqueles dias.<br><br>E-mail do autor: [email protected]